Copa América no Brasil: o mata mata acontece fora dos campos

Em agilidade elogiada pela Conmebol, o Brasil aceitou ser sede da Copa América. Aceitou quando a pandemia ainda está no ápice e a vacinação avança em ritmo deprimente. São mais de 460 mil mortos e o governo oferece circo ao povo.




Colunas, Paulo Junior

O governo Bolsonaro deseja fugir da alcunha de genocida, quer renegar o programa de extermínio que vem sendo visto publicamente. Contudo, há um grande problema no curso da negativa, a realidade que se impõe e grita fervorosamente. Bolsonaro renega o título de genocida, mas aglomera e está a mais de dois meses fugindo da vacinação, e agora, o governo Federal achou de bom tom aceitar que o Brasil sedie a próxima edição da Copa América de Futebol. A agilidade empregada para aceitar a competição faltou inúmeras vezes nos últimos meses. Faltou para que fosse dito sim à vacina, às vidas e a um país um pouco mais “normal”.

Em cerca de 12 horas o Brasil respondeu a solicitação da Confederação Sul-americana de Futebol. Em 12 horas as autoridades brasileiras julgaram o pedido da entidade e disseram sim. Um sim que veio sem pestanejar ou apresentar quaisquer represálias. O Governo disse sim ao pedido da entidade como quem oferece circo ao seu povo, pois neste momento o pão já não povoa a mesa de muitos brasileiros.

O negacionismo bolsonarista segue dando passos firmes e seguros rumo ao seu projeto de trevas. Há um genocídio neste país. Apenas no Brasil já morreram mais de 460 mil pessoas vítimas de Covid-19. Ontem, segundo o Ministério da Saúde, foram registradas mais 860 mortes. Ou seja, o país segue em um quadro alarmante e crítico. Porém, para o desgoverno brasileiro, trata-se de um momento apropriado para promover encontros aleatórios pelas ruas, e assim, correr o risco iminente de voltar ao ápice do caos de outrora.

O Brasil vive, ainda, duros momentos de uma segunda onda de contágios. Segunda onda que vem sendo responsável por um colapso geral do sistema de saúde. Os números da segunda onda são mais alarmantes e assustadores que da primeira vez, março de 2020. O Brasil se torna, cada dia mais, a escória da sociedade mundial. Enquanto outros avançam e vacinam, permitem que seu povo tire as máscaras, se abracem, beijem e se queiram bem, o Brasil segue parado no tempo, parece que não saiu de 2020, parece que não planeja sair.

O governo aceitou sediar a Copa América com sorriso no rosto, com ar de realização. Aceitou quando a pandemia vivência um leve platô, porém, em estágio bastante elevado, exigindo em demasia os equipamentos de saúde. O governo aceitou ser sede da Copa América como quem aceita sentar na primeira fileira de uma ópera trágica. Entretanto, a ópera conjuga a ficção, o Brasil conjuga a realidade; e uma triste realidade.

O país assiste em meio a maior crise sanitária da história uma CPI que busca verificar ausências do executivo no combate à pandemia. Assiste ex-ministros dizerem que o presidente optou por não intervir no Amazonas, que mandou investir na Cloroquina, que não compraria vacinas, que precisava atingir imunidade de rebanho. Assiste a descoberta de um ministério da saúde paralelo. Enquanto tudo isso acontece, o país sediará a Copa América, um torneio de relevância questionável e de interesses, no mínimo, escusos para o momento atual.

A Conmebol ofereceu o torneio ao Brasil depois de Argentina e Colômbia dizerem não. Depois de outros países negarem a oferta de infectar seus pátrios em nome de alguns minutos de diversão. Trata-se de um torneio raso, um mês de bola rolando no gramado e de vidas sendo amontoadas nos cemitérios. Um mês de jogos inseridos nas quatro linhas, um mês de vidas sendo jogadas.

O Presidente da República repetidas vezes imitou um paciente de Covid-19. Imitou a falta de ar. Agora, ele deseja que outros sintam a dor que por ele foi representada. O mata mata da Copa América não acontece no campo, acontece nos hospitais lotados, nas UTIs indisponíveis, no oxigênio que falta, na estafa das equipes de saúde. O mata mata acontece na falta de vacinas e na agilidade seletiva.

O genocídio pandêmico atinge um novo patamar, chega a uma fase que não há mais disfarce, apenas um discurso mal arrumado. O genocídio pandêmico é expresso, objetivo e destrutivo. O mata mata já vinha em alta velocidade, agora se acentua. Enquanto ele se desdobra, Bolsonaro viaja e gasta o dinheiro público. Porém, não com vacinas, mas com viagens sem fim, sentido ou motivo que seja capaz de beirar a lógica. Já foram mais de R$18 milhões empregados neste tipo de ação. Enquanto isso, mais de 460 mil vidas já foram ceifadas. O mata mata brasileiro acontece fora do campo.

O Brasil demorou nove meses para responder a Pfizer, farmacêutica que nos ofereceu um lote de vacinas com entregas para dezembro de 2020. O Brasil recusou a Coronavc, do Instituto Butantan, enquanto pôde, se não o fizesse teríamos sido o primeiro país do mudo a vacinar. O Brasil demorou meses para prorrogar o auxílio emergencial. O Brasil levou 12 horas para dizer sim a Copa América.

Estádios lotados deveriam ser realidade, caso houvesse compromisso com a competência. Entretanto, o executivo federal está comprometido com a desordem, com o caos e com fim. Lotar estádios em junho de 2021 é lotar UTIs e cemitérios. Bolsonaro se diz imorrível, mas há nele o dom da morte, por suas mãos vem passando o indescritível. Já há vacina para Covid-19. Em breve, mesmo contra vontade do governo federal, o mata mata fora das quatro linhas observará seu fim. Espera-se que a dose contra Bolsonaro seja aplicada sem piedade em 2022. No último fim de semana as ruas disseram não ao genocida de plantão, ele é limitado, finge não entender, mas no fundo sabe que a primeira dose antibolsonaro já está sendo aplicada.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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