Quem tem medo de CPI? Bolsonaro tem

A CPI da Covid-19 começou os trabalhos na última semana. O governo federal tenta fingir tranquilidade, mas a ciência do passado os coloca defronte ao temor, a CPI olhará a ingestão da pandemia. O Planalto está assustado.




Colunas, Paulo Junior

Em linhas gerais, pode-se dizer que algumas Comissões Parlamentares de Investigação (CPI) têm capacidade de deflagrar fortes problemas no executivo, seja ele municipal ou federal. Quando o mandatário deste executivo tem ciência da sua culpa, a abertura de uma CPI significa a profusão absurda do medo. A instauração da CPI da Covid-19 trouxe pavor aos corredores do Palácio do Planalto. Bolsonaro, já brada nos gabinetes contra senadores e demais políticos da oposição, busca desqualificar aqueles que um dia elogiou, não consegue se conter nem mesmo em uma simples ligação. Se perguntarem: quem tem medo de CPI? Bolsonaro tem.

E o medo deve ser considerável, afinal, a gestão do Governo Federal diante dos números da pandemia de Covid-19 é trágica. Ou melhor, é sinal da ingestão. O governo Bolsonaro preocupou-se mais, e segue, em partidarizar e politizar a vivência de uma pandemia mundial, do que em buscar meios de aplacar a situação no país. Bolsonaro tem medo, pois apesar de contar com massa encefálica limitada, ainda consegue compreender que é culpado, que se furtou a agir quando deveria se empenhar ao máximo. Ele compreende tacitamente que não é capaz ao cargo que ocupa, nem em envergadura política e, muito menos, técnica.

Os trabalhos da CPI começaram na última quinta-feira, 29 de maio, na primeira sessão foi discutido o plano de trabalho da comissão, que definiu que já nesta semana irá ouvir todos os ex-ministros da saúde. O primeiro a depor na CPI será Luiz Henrique Mandetta, que conduziu os trabalhos com a pandemia até abril de 2020, em seguida será a vez de Nelson Teich, que ficou na pasta durante um mês. Após isso, aguarda-se a presença de Eduardo Pazuello, que estava a frente o Ministério da Saúde até março deste ano. A oitivas iniciais devem ser finalizadas com a presença do atual condutor do embate ao Coronavírus, Marcelo Queiroga.

Eduardo Pazuello deixou o ministério sob fortes críticas, não tendo conseguido estabelecer planos básicos de distribuição efetiva de vacinas, até oxigênio voltou a faltar em algumas cidades. Pazuello também chegou a falar contra a eficácia dos imunizantes. O especialista em logística já foi visto passeando sem máscara em um shopping de Manaus. Porém, enquanto o ex-ministro amplia sua carga de maus exemplos, o Palácio do Planalto decide lhe oferecer treinamento. Pazuello foi recebido na sede do executivo federal no último sábado, 01, passou boa parte do dia rodeado de assessores, eles estariam preparando o General para falar durante os questionamentos. Além disso, Pazuello deve ser munido de documentos que, em tese, seriam capazes de trazer confiabilidade ao que ele dirá em breve.

Entretanto, enquanto o Planalto tenta preparar aquele que deve ser um de seus maiores problemas durante os trabalhos da Comissão, esta, também se prepara. Senadores independentes e de oposição planejam exaurir Pazuello até o fim, colocando-o de frente a todos os encaminhamentos feitos durante sua gestão na pasta da saúde, inclusive as recomendações de um suposto Kit Covid. O depoimento do General do Exército é um dos mais aguardados deste início de trabalho e, certamente, será um dos mais longos de toda a CPI.

Ao olhar para o retrovisor, fica ainda mais nítido a justificativa do medo presidencial. As declarações de Bolsonaro passam pela desqualificação do vírus, pela descrença na dor daqueles que perderam entes queridos, além dos já tradicionais ataques à imprensa e a parte significativa da comunidade internacional. O algoz preferido foi a China, maior parceiro comercial do Brasil e principal fornecedor de matéria-prima para as vacinas aplicadas no Brasil. Nesse bojo, cita-se, ainda, o fato de ministros do Governo serem orientados a tomar vacina as escondidas.

Bolsonaro tem memória curta, mas nem tanto, se esforçando um pouco ele lembra da lentidão do executivo para entregar auxilio aos mais necessitados. Lembra da demora em ampliar leitos de enfermaria e UTI, lembra da agilidade para propor tratamentos sem justificativa ou comprovação. Lembra das aglomerações produzidas e da sanha sempre antidemocrático.

Bolsonaro tem medo da CPI, porque sabe que seu governo está respirando com ajuda de aparelhos. Em live realizada em 18 de março, ele emulou um paciente com dificuldades para respirar, usando da situação para produzir risos mais que jocosos. Hoje, ele finge publicamente que domina o contexto, que é senhor de si, mas nem mesmo a aliança com o Centrão será capaz de barrar a extensão dessa CPI. O governo Bolsonaro, hoje, tem dificuldades para respirar, está intubado e provavelmente assim permanecerá por um tempo.

A CPI tem um duplo aspecto, olha o passado, indicando as ingerências praticadas, e projeta o futuro. O bolsonarismo teme fortemente 2022, mais um motivo para o medo tão falado. Em um contexto de base popular ampla em dissolução, e com outros candidatos ensaiando crescimento e capilaridade, Bolsonaro já se isola, sabe que 2022 não será tal qual 2018. O medo do bolsonarismo é figurar como coadjuvante, pois sabe que a depender do resultado da Comissão, suas chances de reeleição diminuem consideravelmente.

A CPI, comandada por Omar Aziz (PSD-AM) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), e relatada por Renan Calheiros (MDB-AL), demonstra, também, a incapacidade do atual executivo federal em lidar com o Congresso Nacional. O Governo tratou a CPI como algo irrealizável, que não ganharia corpo e potência, assim, não agiu quando devia e ficou sem nenhum dos cargos chave, do mesmo modo que conta com minoria na composição geral.

Bolsonaro tem medo, e ao que tudo indica, esse medo será ampliado nos próximos meses, a CPI promete um trabalho profundo, com capacidade de atingir a gestão federal de modo singular. Nem mesmo a tentativa de levar o foco dos trabalhos para governos estaduais e municípios foi capaz de reduzir a apreensão do Alvorado. Bolsonaro, atualmente é um político acuado, preso ao Centrão, bradando asneiras e com adversários que o acertam diretamente. Ele não é afeito a literatura, mas eu recomendaria um bom livro, pois no quadro atual apenas uma boa leitura é capaz de reduzir o medo. No entanto, quando há ciência da culpa, ler-se-á de Drummond à Shakespeare e o medo não sairá.   

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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