O Governo e as cobranças do Centrão

Pouco depois de assumir o comando do legislativo nacional, o Centrão já manda parte da fatura ao Palácio do Planalto. Por sua vez, o Governo prepara reformas e deve se entregar de modo singular ao fisiologismo que já o marca. Bolsonaro volta para casa e já pode, novamente, ser chamado de garoto-centrão.




Bolsonaro com mão apoiada no nariz. Sembante de preocupado.
Brazilian President Jair Bolsonaro gestures during the swearing-in ceremony of his new Health Minister Nelson Teich (out of frame) at Planalto Palace in Brasilia, on April 17, 2020. Teich replaces Luiz Henrique Mandetta, who had several disagreements with President Jair Bolsonaro in conducting the fight against the COVID-19. / AFP / EVARISTO SA

Semana passada esta coluna abordou alguns dos pontos que poderiam ser traumáticos ao governo Bolsonaro, caso a aliança com o Centrão resultasse na eleição dos novos chefes do legislativo brasileiro. A aliança foi vencedora. A Câmara agora está sob o comando de Arthur Lira (PP-AL), líder do bloco fisiológico, já o Senado passou a contar com Rodrigo Pacheco (DEM-MG). No momento atual, parte da conta já é entregue e cobrada junto ao Palácio do Planalto, Bolsonaro, ao que tudo indica, prometeu demais e, talvez, não consiga entregar.

Certamente que se trataram de vitórias consideráveis e importantes, a derrota de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na Câmara obriga que diversas peças do jogo político se reorganizem. Além de oxigenar o fadado Governo Bolsonaro. O mandatário maior da nação entregou-se de modo derradeiro, e público, aos seus métodos de fazer política. Fisiologista deste sempre, Bolsonaro voltou para casa na tentativa de manter-se vivo no xadrez de Brasília.

A volta para casa não foi inteiramente comemorada, a equipe econômica do governo, apesar de parecer alinhada com o novo chefe da pauta de votações, Arthur Lira, mantém alguns vários cuidados. Cuidados necessários, pois a pauta estará ao prazer das necessidades do Centrão.

É incrível como o fazer bolsonarista é incapaz de evoluir, Bolsonaro, eterno garoto-centrão, esqueceu que uma das práticas do fisiologismo é compromisso consigo e não com o outro. O Centrão sabe de seus desejos e das promessas feitas a luz do dia. Portanto, a lua de mel entre o Planalto e o Congresso pode durar pouco ou, em uma situação exótica, sequer começar.

Bolsonaro já prepara uma reforma ministerial, provavelmente será feita aos poucos, a fim de construir um discurso de renovação, de atualização necessária. No entanto, concretamente, é preciso indicar que os partidos do bloco fisiológico não estarão eternamente em banho maria. Logo, as mudanças não virão ao tempo do Governo, mas ao tempo do bloco. Especula-se, inclusive, que alguns ministérios possam ser recriados para garantir a acomodação da extensa lista de compromissos firmados.

Uma dessas novas pastas poderá reduzir, o já minguado, poder de Paulo Guedes. Bolsonaro tem avaliado junto aos seus auxiliares a recriação do Ministério do Planejamento, hoje sob a tutela do super Ministério da Economia. Ou seja, o Governo precisará se esvaziar ainda mais se quiser manter-se relevante ao contexto político do dia. O trágico desse prólogo é que ao tentar viver, talvez, o Governo esteja pavimentando o caminho de seu fim.

Confrontados com o cotidiano das casas legislativas, com a baixa popularidade bolsonarista, com ausência de ações coerentes ao combate da pandemia; o Centrão pode em pouco tempo desembarcar do navio governista. A narrativa de hoje ainda dá conta de um grupo que acredita no renascimento de Bolsonaro e na construção de pontes firmes para sua reeleição. Entretanto, a realidade vem conjugando observações menos benfazejas ao governismo. Em queda nas pesquisas de intenção de votos e aprovação, Bolsonaro age não para buscar a reeleição, mas garantir que ao menos possa concluir o mandato.

Ele já declarou que acorda chorando em algumas noites, disse só há problemas e que teve a vida virada. Ao lado do Centrão, os prantos tendem a ser mais frequentes e as cobranças mais ardorosas, e não serão gritos envaidecidos de uma sanha autoritária que os irão impedir. Bolsonaro brinca com fogo, sabendo que provavelmente irá se queimar.

A distribuição de emendas parlamentares foi apenas a primeira de muitas parcelas que estão por vir. Em janeiro o Governo liberou um volume recorde de recursos para os deputados, e senadores, usassem em suas bases eleitoras, foram mais de R$504 milhões. Porém, após a eleição, a nova base bolsonarista quer mais, já pressiona pelo comando da Casa da Moeda e do Banco do Brasil.

Enquanto isso, o mesmo Centrão julga-se capaz de questionar o trabalho e os procedimentos da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no processo de liberação para uso emergencial de vacinas no país. Há uma histeria instaurada em Brasília. Nesta histeria todos dominam a pauta da saúde, sentem-se aptos e definir questões de interesse nacional. Talvez seja por isso que o fisiologismo também almeja as pastas da ala militar, incluindo a saúde.

As mudanças serão profundas. Bolsonaro, ao tentar evitar o processo de impeachment, pode estar sendo neutralizado, perdendo o grão final de comando que lhe havia em mãos. Porém, isso não significa o fim de suas práticas, porque como afirmado no início, Bolsonaro é garoto-centrão. Logo, sempre emulou os métodos de sua trupe, ora de modo escancarado, ora nos bastidores do Alvorada. A maior diferença é que a partir de agora ele agirá como rei encastelado, desviando enquanto puder para não levar um xeque mate.

No atual barco do Governo, o capitão tende mandar pouco. Porque enquanto o Centrão estiver ancorado, seu cargo tende a ser decorativo. No dia do divórcio, pois ele virá, restará ver se o presidente terá melhorando a sua posição no tabuleiro, porque o Centrão deixa os seus peões à mostra.  

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Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema.E-mail: [email protected]

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