É preciso abrir os livros, ao invés de taxá-los

Em jocosa declaração a Receita Federal afirmou que apenas os ricos leem. É assustador que em tempos de pandemia, o Governo ache prudente pensar uma taxação sobre os livros, julgue prudente taxar parte do saber e limitar, ainda mais, o acesso a literatura.




Colunas, Paulo Junior

Parece que os absurdos que são proferidos pela equipe econômica atual conseguem se alastrar rapidamente, o projeto de desmonte do país é notório, tão notório quanto a lentidão em agir concretamente para reduzir danos. Porém, como o problema econômico é o governo, a solução, talvez, esteja apenas no médio prazo. Em mais uma ação descabida, para usar termos mínimos, o governo anseia por alocar nova carga de impostos sobre os livros. Só esse fato já seria surreal, entretanto, a justificativa consegue ser pior. Segundo a Receita Federal, somente os ricos leem nesse país.

As idiossincrasias pensadas no seio do Palácio do Planalto são indescritíveis. É temeroso vivenciar uma gestão federal que busca limitar a leitura, ao invés de ampliá-la. Os livros são essenciais para manutenção de um Estado democrático e de direito, provavelmente, seja esse o fato que leva o governo a desejar a não leitura. O executivo federal atua como gestor do caos, em ode à ignorância.

É triste notar que enquanto milhares de estudantes são submetidos ao sucateamento do ensino, devido ao atual momento pandêmico, o governo ache justo buscar receitas tributárias na fonte do saber. O governo Bolsonaro, como já expresso nessa coluna uma dezena de vezes, é um desgoverno. Porém, também pode ser caracterizado como governo, se neste alocar-se a negação do saber e o enaltecimento da ignorância como nortes maiores.

Ano passado essa mesma coluna afirmou que taxar o livro é podar o amanhã, é limitar o futuro daqueles que hoje são o presente. Taxar o livro é dizer em alto e bom som que o saber é de menos, que a educação pouco vale. É dizer que essa pátria não sabe o valor da palavra, não sabe o valor da página que à abriga.

O governo diz que somente os ricos leem, no entanto, talvez por incapacidade de ler os dados, não notou que a classe dos mais ricos foi a que mais observou queda no número de leitores. De acordo com dados do levantamento Retratos da Leitura no Brasil, entre 2015 e 2019 a classe A notou seu público leitor declinar de 76% para 67%. Assim, foi a elite financeira que mais contribuiu para retração observada no setor editorial brasileiro.

Pensar que o livro é coisa de rico é assumir perigosamente que o conhecimento tem dono, endereço e contracheque. Talvez, caro leitor, você esteja se perguntando se ele não já o teria. É nesse questionamento que o Estado deve atuar, porque o saber não pode ser exclusivo ou privativo, o saber deve ser plural e deve caber em todos os espaços, desde as mansões de alto padrão, até o chão de terra batida.

A Receita Federal, aparentemente, necessita aprofundar melhor seus dados, buscar outras fontes de informação e de tributação. Esse país não pode achar natural, ou compressível, que esse discurso elitista vigore. Esse discurso hediondo assume para si que não há problema se somente uma parcela da população tiver acesso à literatura, não há problema se uma parte da sociedade estiver excluída das bibliotecas nacionais, não há problema se a ignorância for a regra da existência.

Ao ansiar por findar com os incentivos fiscais ao mercado editorial, taxando ainda as obras em 12%, o Ministério da Economia cega-se a informações gritantes contidas no relatório Retratos da Leitura no Brasil. Por exemplo, 27 milhões de pessoas das classes C, D e E afirmam que gostariam de ler mais. Eles não leem por um motivo objetivamente simples, livros ainda são caros. Assim, a lógica do Governo Federal deveria ser outra. O país precisa encontrar meios de baratear seus livros, de dar vida as editoras nacionais, de fazer o livro chegar aonde deveria, ao invés de agir para tirá-lo.

Não há país do futuro, e muito menos do presente, sem a crença na literatura, no livro e nas suas potencias. Não há amanhã sem o vigor da poesia, e sem a resistência que existe nas páginas já lidas e nas que hoje ainda se escrevem.

O governo busca o fim do incentivo, porque abrir um livro é abrir um novo arco de interpretações, entendimentos, percepções. Abrir um livro é dizer que não aceita o grito autoritário, ou a sanha da arrogância. O governo quer que a apenas a elite leia, porém, essa elite tem se mostrado pouco afeita a leitura.

O executivo federal parece julgar mais prudente taxar os livros e podar o amanhã, do que se preocupar com as mais de 350 mil mortes por Covid-19 no Brasil. Enquanto se luta pela sensatez ao defender o mínimo, ao defender bases da educação, o governo se esquiva, se joga para um lado e para o outro. Se joga tentando fugir da CPI da Covid-19, porque Bolsonaro, covarde, tem medo de CPI.

Caro leitor, recomendo-lhe a leitura, dos clássicos da literatura aos textos contemporâneos, dos livros acadêmicos à fantasia. Recomendo ‘O Quinze’, de Rachel, as crônicas de Machado, os poemas de Drummond. Recomendo Paulo Mendes Campos, Graciliano Ramos, Cecília e Clarice. Recomendo Maria Rita Kehl, Beatriz Sarlo, Barthes e Foucault. Recomendo Augusto dos Anjos, Fabricio Carpinejar. Recomendo que descubras as páginas que te encantam, te fazem sorrir. Recomendo os livros abertos. Recomendo Paulo Freire.  

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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