Bolsonaro e o mimimi de um não líder

Recentemente o presidente chamou a situação pandêmica de mimimi. No entanto, o momento atual não configura a vivência de mimimi, configura a construção da desordem e ingerência absurda de um gestor que desconhece aspectos de liderança.




Colunas, Paulo Junior

Em um de seus primeiros textos essa coluna refletiu sobre as características que definem e formam um líder. Àquela época, quase um ano atrás, as críticas se dirigiam a ingestão que o governo federal fazia da pandemia de Covid-19. Hoje, incrivelmente, aquele mesmo texto poderia ser replicado. O governo segue vendado, ou melhor, fingindo cegueira ao quadro atual.

Na última semana morreram mais de dez mil pessoas vítimas de complicações causadas pela pandemia do novo coronavírus, esse é ápice da covid-19 no país. Ou seja, o Brasil vive na atualidade o maior nível de contaminação do período pandêmico. Porém, a pior parte não chega a ser essa. Pois enquanto as dores se alastram, a vacinação chega em passos lentos e em regime de conta gotas.

É surreal que um país com as dimensões, e complexidades, do Brasil não tenha compreendido desde o início que não haverá retorno à normalidade sem vacinação. Não haverá economia, emprego, renda, nada, sem que hajam esforços integrados e coletivos pela ampla imunização.  Nesse segmento, esperava-se que houvesse na presidência da República alguém que dispusesse da acunha de líder, no entanto não há. O que há é um incapaz.

Um incapaz com problemas de compreensão ao contexto atual. O presidente da República se questionou recentemente até quando duraria esse mimimi. Para Jair Bolsonaro, ver UTIs lotadas e observar mais de mil mortes diárias é mimimi. Para o chefe do executivo federal a dor de seu pátrios é desnecessária, para ele tudo que ocorre se resume a perseguição, e a culpa é sempre, e permanentemente, da mídia.

Bolsonaro é vazio, incompreende aquilo que outrora pregou como ideais mágicos de seu governo. Hoje em dia vive na busca de sobrevivência. No entanto, enquanto busca manter as estruturas rachadas de um governo fadado a cair, ele age na contramão da vida. Pois seu discurso é a consolidação do fim, da morte e do silêncio.

As falas do presidente deviam encaminhar para o isolamento, para o asseguramento de novas remessas do Auxílio Emergencial. Mas ele prefere produzir aglomerações, e depois dizer em tom arrogante que é tudo conspiração. O presidente fala de mimimi, pois conhece profundamente o arco de sua produção.

De acordo com o chefe do executivo federal, ele não errou nenhuma no último ano. Esquece que há um estoque absurdo de cloroquina nos depósitos no Ministério da Saúde, esquece que recusou uma oferta de 70 milhões do doses de vacinas da Pfizer, esquece que agiu contra a vacina do Butantan. Esquece que incentivou aglomerações, esquece que pretendia um auxílio de R$200. Poder-se-ia pensar que o presidente dispõe de perca de memória recente, porém, na realidade ele dispõe de ingerência, ignorância e doses solidas de inumanidade.

O Brasil vive o auge da pandemia, e enquanto governadores agem na ânsia de contornar o quadro de transmissão, o ocupante do Planalto decide punir artistas de estados que estejam vivendo lockdown. De acordo com diretrizes recentes, a Lei Rouanet não será possível para artistas destes locais.

E assim, a impressão que se tem é que não haverá um fim para o momento atual. Isso é desolador. É incrível que haja hoje uma sensação eterna de ontem, de repetição do mesmo dia, discurso e crueldade.

O mimimi de Bolsonaro é desolador, acachapante. O mimimi do presidente limita o horizonte, ao invés de avultá-lo. Enquanto o país se fecha mais uma vez, porém, com quadro econômico e social ainda mais brutal, o filho do Bolsonaro compra uma mansão seis milhões de reais. Enquanto a população grita pelo mínimo, a presidência da República investe em caminhos irreais.

Bolsonaro se questiona até quando irá durar o mimimi. Certamente também há um denso questionamento por parte do corpo social: até quando o mimimi Bolsonaro irá vigorar? Porque o mimimi Bolsonaro é o da desordem, do caos, da destruição. O horizonte do mimimi Bolsonaro projeta uma vivência ainda longa com a pandemia. O mimimi Bolsonaro projeta a consolidação da ingestão, da acultura e do vazio.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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