Um feriado que exige mais do que descanso

A data é um convite à reflexão e à ação contra o racismo.

Colunas, Evellen Rodrigues

Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil celebra o feriado nacional da Consciência Negra. Antes restrito a alguns municípios, o dia 20 de novembro foi oficializado em todo o país pela Lei nº 14.759, de 2023, tornando-se um dia dedicado à celebração da cultura negra e à reflexão na busca por estratégias de reparação histórica para o povo afro-brasileiro.

A data remete à morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares e símbolo da resistência contra a escravização. Celebrar essa data é lembrar que a luta por liberdade direitos e bem-viver não acabou com a abolição.

Segundo o Censo 2022, a população negra (pretos e pardos) no Brasil é de 112,7 milhões, representando 55,5% do total. No Ceará, esse número é ainda maior, chegando a 71,5%, sendo 6,8% autodeclarados pretos e 64,7% pardos, totalizando cerca de 5,7 milhões de pessoas. Apesar de serem maioria, as desigualdades em educação, saúde, renda, longevidade, acesso a oportunidades e liberdade religiosa do povo negro, permanecem expressivas.

O Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), mostra que negros brasileiros enfrentam desvantagens e dificuldades estruturais em praticamente todos os setores da sociedade brasileira. Essas desvantagens enraizadas se refletem em índices como o da população carcerária, na qual pessoas negras representam 70%, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, além de estarem entre as principais vítimas de homicídios.

Não há mais tempo para fechar os olhos e ignorar a dívida histórica que nos atravessa diretamente, e que precisa ser reparada. Nesse processo, é fundamental que políticas públicas sejam pensadas e debatidas junto ao povo afrobrasileiro, para garantir uma implementação eficaz e rápida.

Além disso, valorizar e reconhecer a cultura negra como autônoma, plena, e anterior ao período escravista, deve ser uma das principais ferramentas para derrubar estereótipos que ainda circulam nas escolas, nos debates e no imaginário popular brasileiro. Mais do que resistência ou beleza, somos um povo rico em conhecimento, filosofia, arte, música e ciência, muito do qual foi apropriado ao longo da história.

Diante desse cenário, é urgente reconhecer a necessidade de unir forças para enfrentar os crimes contra comunidades negras, tanto no Brasil quanto no Ceará. O 20 de novembro não é — e jamais deve ser — um dia de “celebração das diferenças”; ele é um lembrete de que a luta continua, é diária, essencial, e se fortalece por meio da ação coletiva e do compromisso constante.

foto: reprodução

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