Quando as crianças me pintam

Inventei de te encontrar numa tarde cheia de olhares e cores.




 Queria que estivesse ali como das outras vezes, mas naquele dia você não veio. Parece que só faltava a sua presença, mesmo não estando ali, estava dentro de mim, mas queria mesmo era a sua presença. Naquele dia eu estava com uma camisa branca. Sentei num banco, posto na rua, e, comecei a olhar as pessoas: olho por olho, não disse nada, mas não fiquei em silêncio. As crianças começaram a me pintar, como se eu fosse uma escultura. Não falava, não mexia, só olhava e escutava. A tinta foi cobrindo todo o meu corpo e minha roupa e as pessoas que passavam abriam os olhos com exclamações e interrogações. A tinta já tinha se espalhado. O meu corpo era apenas mais um corpo pintado entre tintas e risos. As crianças se encontravam, pintavam-me e se pintavam.       Veio a água. Com uma mangueira fizemos a tinta escorrer e fazer caminhos coloridos pela rua, já podíamos ver nossos rostos. Até parece que foi uma brincadeira. Talvez tenha sido também. Quem sabe, estávamos brincando de se olhar e não de pintar.     Continuava procurando o teu rosto naquele dia. Anos depois, as crianças voltaram a me pintar e você estava ali registrando cada cor.   Era como se estivéssemos nos pintando e nos olhando.   Quando as crianças me pintam, lembro que, agora, falamos de pintura e olhamos com mais cores os nossos encontros.

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Sobre Alexandre Lucas

Pedagogo, Presidente do Conselho Municipal de Políticas do Crato-CE, integrante do Coletivo Camaradas e da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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