Olímpiadas devolvem ao brasileiro um pouco do patriotismo perdido

Em meio ao irreal patriotismo propagado pelo bolsonarismo, as Olímpiadas conseguiram devolver, momentaneamente, um importante sentimento de pertencimento comunitário.




Colunas, Paulo Junior

Infelizmente o país tem vivenciado as mais variadas nuances do caos e da desordem. Imerso em discursos vazios, politicagem barata e em uma crise abissal que se estabeleceu entre o Supremo Tribunal Federal e o executivo nacional, as olímpiadas de Tóquio foram um respiro necessário. Durante duas semanas e meia o brasileiro sentiu-se vibrante, encontrou bases sólidas e fecundas de um patriotismo que existe na realidade. Um patriotismo que é de fato e não de goela, tal qual o do presidente Bolsonaro.

No Japão, o Brasil fez a sua melhor campanha em jogos olímpicos, foram 21 medalhas ao todo, destas, sete são de ouro. Os atletas nacionais atingiram este feito mesmo vindos de uma país que ainda é parco em investimentos efetivos no esporte. Alguns dos contrassensos mais complexos residem neste dogma, o país que varou madrugadas vendo competições, torcendo, se emocionando; é o mesmo que oferece condições, às vezes, impraticáveis, para que seus atletas treinem e cheguem ao topo do pódio.

A delegação brasileira era uma das maiores da história, foram 309 esportistas. Atletas que retornam com sentimento de vitória, e o devem fazê-lo. Pois em tempo de escassez de recurso, de cortes de 20% no Bolsa Atleta, o que eles fizeram é digno de vitória. Os desportistas brasileiros estão, essa é a verdade, no topo do pódio. Diante do naufrágio das suas condições de exercício do esporte, chegaram à Tóquio e conseguiram, neste período, emocionar e vivificar, momentaneamente, uma nação já tão machucada.

Foram muitos os momentos que fizeram com que a bolha fosse furada, com que ao menos por alguns segundos houvesse o desligamento das múltiplas dores que ainda maculam o Brasil. As redes sociais se encheram de exemplos de emoção, na conquista da pequena Rayssa Leal, de treze anos, no skate. Ou com a luta das meninas do vôlei que, de desacreditadas no início, foram ao pódio e ostentam com orgulho uma honrosa medalha de prata.

Isaquias Queiroz remou com um Nordeste inteiro ao seu lado, e mais uma vez encontrou mundo a fora o correr das águas nordestinas. A medalha de Isaquias, como as demais, encontra-se ancorada em muitos peitos pelo país. Peitos que bateram forte nestes rápidos dias de competição. Mas até isso estava um pouco diferente, naturalmente a competição teve seu posto, mas durante seu percurso abriu espaço para discussões importantes, desde aspectos psicológicos, até a união indispensável entre atletas.

Representantes da delegação brasileira durante cerimônia de abertura das Olímpiadas. Foto: AFP

Tóquio trouxe, nestes poucos dias, um sentimento que já vinha sendo esquecido. Durante este período o patriotismo voltou a existir, um patriotismo verdadeiro, daqueles que se orgulham do solo que habitam. Patriotismo que existe enquanto prática, e não como retorica politiqueira e barata. A narrativa do patriotismo olímpico é fundamental. Fundamental para que, quem sabe, haja um despertar social. Porque o país que se encanta por Rebeca Andrade ao som de Baile de Favela, claramente, não é o mesmo país que coaduna o governo atual.

O gingado, o jeito manso e carismático. A magia que existe em Rebeca. Esse é o Brasil do patriotismo de fato. Esse foi o Brasil que furou por alguns segundo a bolha do bolsonarismo abjeto, incapaz de compreender a extensão das falas que são postas no debate público.

O Brasil mostrado em Tóquio é o Brasil da constante superação. 42% dos atletas nacionais não dispunham de patrocínio, 13% precisaram fazer vaquinha para conseguir viajar. O contexto ainda piora, especialmente, quando se constata que 10% dos representantes brasileiros no Japão não sobrevivem do esporte que praticam, não são raros os relatos de atletas de ponta que atuam como motorista de aplicativos e uma série de outros bicos.

O Brasil de Tóquio foi o Brasil do respiro, uma pequena fagulha que foi capaz de apontar esperança. Mas é um sentimento que ainda não sabe se fica. Porque é inadmissível que se exija a perene repetição do milagre. Em 2021 o Brasil entregou seu melhor resultado, superou a ausência de infraestrutura que acompanha vários profissionais, assistiu a vitórias que deram uma luz para o amanhã. Resta ver quando este amanhã chegará.

Passada a Olimpíada, as emoções, e as belas cerimonias de abertura e encerramento, voltamos à realidade. Na realidade brasileira o patriotismo bolsonarista segue de goela, ele mantém a baladeira esticada e tenta a todo custo forçar as instituições democráticas. As Olímpiadas foram um respiro, uma pausa na loucura social brasileira. Mas, agora, é necessário e urgente que o se aja na seara pública, para que o discurso raso, hediondo e apolítico seja suprimido. Assim, em 2024, quando a olímpiada chaga à Paris, voltaremos às telas um tanto quanto mais sorridentes. Que em 2024 a torcida se faça lotando estádios, que os brasileiros se lotem de medalhas, e que a torcida nacional não precise ver os jogos quase que em uma realidade paralela ao espectro nacional.

Everaldo Marques, narrador da TV Globo, usa seguidamente o bodão: você é ridículo. Ele o faz diante de um feito importante. Sendo assim, para que as nuances de caos diminuam, é indispensável que haja muitos fatos nestes três anos que antecedem o próximo evento. O primeiro: você é ridículo; precisa ser expresso em 2022, assegurando um patriotismo mais de fato e menos de goela. Entretanto, por ora, é preciso de dizer a todos os representantes brasileiros em Tóquio: vocês foram ridículos.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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