O que esperar de um BBB com recorde de participantes negros?

A nova edição começa nesta segunda-feira (25), e expectativas não podem ser criadas.




Colunas, Joedson Kelvin

Na semana passada, o Big Brother Brasil, um dos maiores reality-shows do planeta divulgou a lista de participantes de sua mais nova edição, que começa nesta segunda (25). Para muitos, uma primeira impressão: pela primeira vez na história, o programa terá 9 participantes negros e negras disputando 1 milhão e meio de reais – o que ainda não é a metade do elenco, mas é um número que jamais se tinha visto. E a pergunta que não quer – ou quer – calar é: O que esperar dessa edição com tanta gente preta? 

Muitos são os comentários acerca desse elenco. Expectativas já foram criadas. E não me diga que você nunca reparou na maioria das pessoas que participaram do BBB, que sem dúvida alguma, sempre foi formada por pessoas brancas. E se você não é fã ou não assiste de jeito nenhum o programa, também é importante que você, no mínimo, preste atenção neste feito histórico ao longo dos próximos 100 dias.

É fato que as últimas edições do BBB trouxeram diversos assuntos pra jogo para além do entretenimento, que estiveram diretamente ligados a tão não famosa vida real. Na edição do ano passado, a pauta Feminismo foi o carro-chefe do desenrolar do programa, a exemplo, a busca no Google pela palavra “Sororidade” cresceu 250%, depois de ser mencionada por Manu Gavassi durante uma das formações de paredão. 

Mas nem só de feminismo foi marcada a edição histórica de 2020. Com uma final 100% feminina, a grande campeã foi Thelma de Assis. Thelma se consagrou como a primeira mulher negra-retinta a vencer o grande prêmio. A trajetória da médica não foi fácil, em vários momentos foi isolada no jogo por colegas de confinamento, chamada de planta, prepotente e correu sérios riscos de ser cancelada pelo público quando levantou a voz e se posicionou com firmeza na disputa. E é sobre esses tipos de episódios que devemos falar, agora, trazendo para o novo BBB que, diferente do ano passado, não conta com apenas 3 participantes negros (Thelma, Babu e Flay). 

BBBlack? Expectativas não podem ser criadas!

A dinâmica do Big Brother é sem dúvidas colocar à prova a humanidade em sua mais pura essência confinada. E é justamente sobre o significado da palavra humanidade que é preciso destilar quando já vemos certos comentários acerca de pessoas negras sob uma ótica de concorrentes a um prêmio, e que formam o elenco de um programa que visa sobretudo entreter e comercializar produtos

Não é porque teremos um número recordista de pessoas negras neste BBB que devemos esperar que elas estejam obrigatoriamente em sintonia pautando questões raciais. Não que elas não possam estar, seria perfeito, mas perfeição não existe, e não é de gente negra que isso deve ser cobrado. Mas a questão é justamente não colocar expectativas = pesos para elas carregarem ao longo do reality. 

Sabemos que mais da metade da população brasileira é negra, mas apesar disso, a pessoa negra neste país é cobrada, taxada e vigiada dentro e fora da televisão. Para acertar, tem de pelejar três vezes ou mais e ainda provar que acertou mesmo depois do acerto. Já quando erra ou ao menos não cumpre a expectativa do outro, é cancelada no primeiro instante. É como estivesse sobre uma corda bamba da aceitação que, a qualquer momento, pudesse “se estabacar” no chão. 

É tanto que não se pode esperar que, no jogo, todos os participantes estejam de igual para igual, uma vez que o desenrolar do reality depende do dentro e do fora da casa. A TV sempre evidencia questões sociais, e não é o BBB que mostrará que depende somente de cada um, com seus próprios esforços, vencer o programa. Da mesma forma não nos venha com a história de democracia racial, já que não se pode se prender à quantidade de participantes negros diante do número de brancos, até porque o cerne da questão é: o Brasil que estará assistindo, julgando e elegendo quem está certo ou errado. E, sinceramente, o Brasil é um país estruturalmente racista. 

Pipoca x Camarote

Não podemos esquecer também que a nova estrutura do jogo, aderida desde o ano passado, já começa com uma divisão. De um lado, a turma da Pipoca, com participantes anônimos, pessoas comuns do Brasil, dentre as quais temos apenas 3 pessoas negras (Lumena, Gilberto Nogueira e João Luiz). Do outro lado, a galera do Camarote, conta com 6 pessoas negras (Nego Di, Lucas Penteado, Projota, Camila de Luca, Karol Conka e Pocah), as quais já possuem grande visibilidade e considerável fama.

No BBB passado, a trama criada aqui do lado de fora, cheia de expectativas e cobranças, sobre Thelminha (Pipoca) e Babu Santana (Camarote), é o que não pode acontecer nesse reality.  Embora a divisão entre os dois grupos seja a própria dinâmica do jogo, ela também separa e mexe com as pessoas, e a gente já sabem quem mais é mexido. 

Sem espera, mas com gostinho de protagonismo, que seja um BBBlack, mas que antes e com prioridade seja para os BLACKS uma experiência que lhe tragam sucesso, autoconhecimento, valorização, crescimento e liberdade suficiente para serem eles próprios. Se para a Globo o foco é mais recordes de votação, lucro e sucesso no mercado televisivo e digital, que seja também para os seus participantes negros que, inclusive, não foram escolhidos por bondade da emissora, mas porque até ela sabe dos seus poderes. Não espere nada, deixe que elas e eles sejam! Preto é pra brilhar e, se a coisa tende a ficar ainda mais preta, então… 

Sobre Joedson Kelvin

Jornalista formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA). Fotógrafo experienciador que vê, escreve e sente, não necessariamente nesta ordem.

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