O Governo do desgoverno

Atualmente o Governo Federal não governa, vive na busca de sua sobrevivência, almejando defender-se e evitar possíveis investigações e/ou impeachments. Hoje, Bolsonaro já não finge governar, tirou as máscaras e os tapumes que estavam postos

Vigora a desordem e o inexplicável. O governo caminha por pântanos conhecidos da política nacional, refaz rotas já vistas e flerta diariamente com o autoritarismo e com a indecência. Dentre tantos adjetivos que poderiam marcar a gestão atual, certamente, nenhum seria melhor do que: incompetência. O país está diante do descontrole e da ignorância.

  Não é necessário realizar grandes e profundas reflexões para perceber a debacle que se instala no solo brasileiro. Esta debacle tem entre suas origens uma situação no mínimo peculiar, pois enquanto o mundo enfrenta duas crises simultaneamente, o Brasil enfrenta três. Além da crise de saúde sem precedentes e da crise econômica que se associa a primeira, o país ainda lida com fortes embates de origem política. Embates que se realizam cotidianamente, fator que exacerba os ânimos e piora a evolução, já grave, da pandemia de Covid-19.

   O Presidente da República escreve dia a dia os capítulos da crise política, todos contam com sua indescritível assinatura. Essa dinâmica é péssima para o cotidiano do país, a crise de origem política respinga duramente nas demais. Não existe plano Federal sério de ação contra o Coronavírus, tal ausência encontra gênese na falta inteira de coordenação política. Mesma situação acontece na economia, as linhas de crédito não estão chegando aos pequenos empresários, seus negócios estão em vias de fechamento definitivo, mais um exemplo da ausência quase que completa do Estado.

 O momento ímpar que o país vive é definidor do presente e construtor de ideias de futuro, por isso, seria fundamental que houvesse um Governo que se pautasse pelo diálogo, pela ciência, pela lógica. O brasil não está diante desse Governo. 

 O mandatário federal brinca com vidas humanas, faz piada e ri do alto incólume de sua ignorância. Bolsonaro encaminha sua gestão com a eterna sensação de campanha, ele acredita que ainda precisa inflamar a multidão, acredita que isso lhe permitirá ser e fazer o que quiser. Bolsonaro é mais uma vítima de si, da sua falta constante de senso, sentido e reflexão.

  Atualmente o Governo Federal não governa, vive na busca de sua sobrevivência, almejando defender-se e evitar possíveis investigações e/ou impeachments. Hoje, Bolsonaro já não finge governar, tirou as máscaras e os tapumes que estavam postos. No dia a dia seu trabalho é costurar a crise que constrói e dá sequência ao caos e a desordem. Diante deste caos ele desgoverna, desmanda, destrói. O governo Bolsonaro é o governo do desgoverno, das trocas, da conveniência, da insensatez e da ignorância aplaudida.

Em dezesseis meses de gestão já foram 11 ministros trocados, sendo que a pasta da Saúde sofreu alterações em menos de um mês e durante a pior situação de saúde da história. Nesses números não estão inclusas as 05 substituições na Secretária especial de Cultura, que com a saída de Regina Duarte terá o sexto titular. O panorama é complexo, pois diante dessas substituições, o presidente vem sistematicamente ponde fim ao ideal de quadros técnicos. Não existe técnico que sobreviva às sandices baseadas em achismos e rasidão. No meio de tudo isso, o ministro Celso de Mello solicitou no dia de hoje que a PRG (Procuradoria Geral da República) realize a apreensão do celular de Bolsonaro, além de ter solicitado que o presidente realize depoimento. Tais ações estão ligadas ao inquérito de interferência na Polícia Federal.

 Há muito mais, as bandeiras de campanha estão por terra. O combate a corrupção foi esquecido na primeira curva que o governo realizou, na primeira investigação que PGR direcionou, na primeira possibilidade de a PF (Polícia Federal) atingir o clã Bolsonaro. O centrão, atacado em 2018, vem sentando a mesa de jantar, já conta com cargos no segundo e no terceiro escalão, entre eles o a direção do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca) e o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), ambos com orçamentos bilionários. Mira, ainda, ao menos dois ministérios, provavelmente a Agricultura e a Ciência e Tecnologia. O fisiologismo negado foi abraçado com força e avidez, Bolsonaro abraça as possibilidades que manter-se, de assegurar-se sem tantos sofrimentos.

É necessário lembrar que fica cada vez mais claro que para ocupar uma vaga na esplanada é preciso aliar-se de modo cego, infundado e vazio as ideias do mandatário maior. Alinhamento que vem exigindo a negação da ciência, do estado de direito, de ideias de republicanismo. Para a vaga é necessário curvar-se a conveniência, sabendo que poderá ser dispensado a qualquer momento.

Os trilhos que atualmente se desenham fazem com que a cadeira do presidente seja seguidamente esvaziada. Esvaziamento que não tem nada a ver com a negação da federação, mas que tem a ver com a impossibilidade de permitir ações que tem a sanha da atrocidade. No hoje é fundamental que o parlamento dialogue e consiga fundar pontes firmes com a sociedade e com o próprio Governo; fundamental que o judiciário enxergue e aja quando for solicitado.

 O Governo do desgoverno dá passos longos no aprofundamento da crise política, passos que obrigam a sociedade civil a organizar-se e dizer quais suas prioridades. No desgoverno, a população atua para que o barco não afunde carregando todos, para que alguns possam se salvar. A crise política que assola o Brasil é resultado da irresponsabilidade governamental; irresponsabilidade que escancara o desconhecimento da constituição, do Estado e de aspectos mínimos de dignidade e respeito humano. É inadmissível que alguém que assume lugar de líder se porte como bobo da corte.

 Como bobo da corte Bolsonaro não governa, seu trabalho é agir como se dispusesse de alguma credibilidade. Assim, ele troca ministros, realiza embates ideológicos na área da cultura, abraça o centrão, esquece o coronavírus, faz piadas infames e se defende, ou tenta fazê-lo. Bolsonaro conduz um desgoverno de futuro incerto. O slogan “Pátria amada Brasil”, vem se desmanchando, o amor e o ideal pátrio são degraus de um caminho de poder. No desgoverno atual o patriotismo é um detalhe que não sobrevive aos fatos.

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Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA e um apaixonado por política, literatura e cinema

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