O constrangedor silêncio de Bolsonaro sobre Rússia e Ucrânia

Em 24 de fevereiro a Rússia invadiu o território ucraniano, em um movimento bélico que lembra tempos passados de conflito. Neste momento, a diplomacia mundial está agindo para buscar meios de abrir a mesa de negociações, porém, no Brasil se vê silêncio e o rechaçamento enfático não veio.




Colunas, Paulo Junior

O mundo está atônito, e não é para menos, pois vive-se neste momento uma tensão de poucos precedentes recentes. O temor da guerra voltou a ser factível, visível e sentido no cotidiano dos noticiários e no dia a dia das pessoas. A invasão da Ucrânia pela Rússia acende temores de uma escalada de embates sangrentos. Embates que tem desdobramentos em todos os cantos do planeta. Nesse seguimento, não é possível vislumbrar o fato com um ar de naturalidade, ou fingir que nada de relevante está acontecendo. Contudo, na cartilha bolsonarista, parece que essa é a lição da política externa. Em meio ao caos mundial, o pseudo líder brasileiro vem optando pelo silêncio.

O silêncio que por vezes pode ser salvador, e necessário, neste caso é vergonhoso. O Brasil é uma pátria com histórico de diplomacia, logo, era esperado que partisse daqui um coerente rechaçamento à invasão do território ucraniano. Isso deveria fazer-se por se tratar de uma clara violação à autonomia de outro país. O movimento russo busca espoliar parte do território da Ucrânia, bem como definir os rumos políticos do país. Ou seja, o governo russo quer gerir o futuro de outra nação.

Somente esse contexto já deveria ser suficiente para que se observasse do Brasil uma posição de veemente negativa à escalada bélica de Vladmir Putin, presidente da Rússia. Porém, Bolsonaro preferiu viajar ao país momentos antes da invasão acontecer. Em visita de cortesia a Putin, o presidente brasileiro chegou a se gabar de que teria sido responsável por um pequeno recuo das tropas russas que ocupavam parte da fronteira entre os dois países.

O Brasil demorou a se posicionar. Enquanto parte significativa do restante do mundo se dizia chocado com a invasão que tem vitimando civis, o chanceler brasileiro, Carlos França, calava-se. E quando o Ministério das Relações Exteriores tornou pública a sua posição, o fez por meio de uma nota quase que protocolar, na qual não exprimia condenação direta para situação, e nem dava ponderações sobre os mais de 500 brasileiros que estavam no país. O Ministério chegou, inclusive, a afirmar que não seria possível realizar uma operação de resgate dos seus pátrios, algo que mudou depois das negativas repercussões.

Nesse domingo, 27, o presidente Bolsonaro disse ter conversado com Putin por cerca de duas horas*. Em conversa com a imprensa o chefe do executivo afirmou que os detalhes da discussão sobre a Ucrânia ficariam em segredo. Bolsonaro disse que o Brasil deve ficar neutro, para evitar que consequências cheguem ao país. Bolsonaro esquece que a neutralidade nesta questão não existe. Ele estava mais preocupado em debater sobre a importação de agrotóxicos para o Brasil.

E assim, após dois anos de pandemia, o mundo se vê imersos em uma guerra. Uma guerra que nasce despropositada e que seria integralmente evitável. Rússia e Ucrânia esticaram a corda em suas relações, a OTAN (Aliança Militar do atlântico Norte) não analisou os fatos como deveria e a União Europeia e os Estados Unidos se limitaram a sanções econômicas parcas. Agora, depois de anos puxando essa corda, a Rússia já não teme tanto o isolacionismo.

No Brasil, o presidente fala de agrotóxicos, e diz que a relação comercial com a Rússia não pode ser abalada. Nos devaneios bolsonaristas, ele chega a cogitar exprimir uma certa lógica para os ataques. Bolsonaro não sabe o que é política externa, não sabe o que está em jogo, e parece não saber que os reflexos do que ocorre a milhares de quilômetros desta nação tem nela reflexos diretos. Sim, é possível que o pão fique mais caro, afinal, parte da nossa necessidade desse insumo é importada, e se dois celeiros importantes para a Europa seguirem neste embate, a oferta mundial diminui e o preço, automaticamente sobe. Ou seja, a neutralidade não deveria ser uma opção, porque o cidadão do dia a dia também sente o preço da guerra lá no outro lado do mundo.

* durante a noite do domingo,27, Bolsonaro se contradisse em uma rede social, e afirmou que o último diálogo com Putin havia sido em sua viagem a Moscou.