O Coletivo Camaradas seu laboratório social

O Coletivo Camaradas tem forte atuação na luta pela democratização estética e artística, ao mesmo tempo que compreende essa luta como parte inseparável da democratização e transformação da sociedade, o que passa necessariamente pela relação capital-trabalho.




Coluna do Alexandre Lucas, Colunas

Criado em 2007, na região do Cariri, especificamente na cidade do Crato, no Ceará, o Coletivo Camaradas, nasce como uma organização política, de esquerda, de caráter marxista, com atuação no campo das artes, da cultura de base comunitária e na organização popular e congregando pessoas de várias áreas do conhecimento. 

Desde o seu nascedouro, o Coletivo Camaradas estabeleceu e estabelece relações de aproximação e diálogo com as mais diversas organizações políticas do campo democrático e de esquerda, dentre elas: Partidos Políticos, Pontos de Cultura, Centro/Circuito Universitário de Cultura e Arte, da União Nacional dos Estudantes – CUCA da UNE, Fora do Eixo e os diversos coletivos espalhados pelo Brasil. No campo institucional mantém relações republicanas com os governos, universidades, escolas e outras instituições ligadas ao poder público.    

Essa dimensão política tem ampliado fronteiras espaciais e compreensões conjunturais e refletido diretamente na aplicabilidade dialética da relação teoria/prática. 

O Coletivo Camaradas têm forte atuação na luta pela democratização estética e artística, ao mesmo tempo que compreende essa luta como parte inseparável da democratização e transformação da sociedade, o que passa necessariamente pela relação capital-trabalho. 

Mas é partir de 2013, que o Coletivo Camaradas começa a sentir a necessidade de estabelecer uma base sócio espacial de atuação, como forma de testar a sua perspectiva política de democratização e escolhe a comunidade do Gesso (Crato/CE) para essa experiência que se transforma numa espécie de Laboratório Social.  

Antes que tudo é preciso contextualizar: a comunidade do Gesso é uma área que abrigou da década de 50 ao final da década de 80 do século passado, uma das maiores zonas de prostituição da região sul do Estado do Ceará. Esse acontecimento tem reflexo direto no processo de urbanização e organização e estratificação comunitária. 

Entender esse aspecto foi essencial para aprofundar a compreensão de como essa comunidade se relacionava ao seu Território composto de cinco bairros ( São Miguel, Palmeiral, Santa Luzia, Pinto Madeira e Centro) e, ao mesmo tempo, como esse Território estabelecia relações com essa comunidade. 

Esse foi o primeiro trabalho deste Laboratório Social, o que possibilitou criar o que denominamos de Território Criativo do Gesso, que é um misto de rede de articulação e diálogo (quando possível) entre as organizações da sociedade civil e do poder público, e que tem possibilitado desconstruir aspectos de estigmatização, democratização de serviços, potencialização de ações sociais e de uma construção de uma nova narrativa territorial e de lugar,  além de constituir um polo pelo direito à cidade. 

A cartografia social deste Território demonstra a sua dimensão criativa a partir do conjunto de organizações que atuam de forma direta e indireta no campo da produção e circulação do simbólico e do conhecimento científico: escolas, universidades, pontos de cultura, ONGS, coletivos, grupos da tradição popular, CRAS e outras organizações da sociedade civil e do poder público que podem e devem atuar na transversalidade da cultura.     

O que caracteriza esse Laboratório Social é a sua inter-relação entre o saber popular/censo comum e saber elaborado enquanto ciência e filosofia. É a dimensão de reconhecer o senso comum/saber popular como ponto de partida que ao ser confrontado/conjugado com a ciência e a filosofia geram um novo ponto de chegada, ou seja, um novo conhecimento, reelaborado.  

É essa experimentação pedagógica que vem dando consistência ao trabalho desenvolvidos pelo Coletivo Camaradas, em várias áreas do conhecimento, tanto na Comunidade do Gesso (lugar), quanto no Território Criativo do Gesso, que é uma espacialidade composta por cinco bairros. Essa diferenciação entre o lugar e o território se faz necessária como afirmação e necessidade da cidade ter territórios integrados aos seus lugares, como instrumento de políticas públicas e de escuta de uma radiografia social e espacial mais aproximada da realidade.            

Neste sentido, este Laboratório Social tem possibilitado o intercâmbio e o atravessamento de fronteiras entres as organizações, costurado diálogos para além das artes e das culturas, despertado a curiosidade sobre esse lugar e território para pesquisas e as políticas públicas, servido de escola para formação de lideranças populares, construído uma utopia metodológica para a organização popular e escrito uma nova história em que o povo tem a dimensão da potência e da construção. 

Sobre Alexandre Lucas

Pedagogo, Presidente do Conselho Municipal de Políticas do Crato-CE, integrante do Coletivo Camaradas e da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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