No rescaldo das manifestações sobrou fracasso

Atos pró e anti-Bolsonaro foram registrados durante a semana. Os dois observaram fracassos importantes. O 7 de setembro abriu mais uma crise institucional e fez o STF subir o tom. O domingo, 12, deixou a sensação de que faltou esquerda nas ruas.




Colunas, Paulo Junior

A Semana foi marcada por dois atos de manifestação, um em 7 de setembro, em prol do governo Bolsonaro; e outro no último domingo, 12, este, anti-Bolsonaro. No entanto, há um dado que une os dois movimentos, ambos experimentaram o sabor do fracasso. O movimento bolsonarista esticou demais a corda e fundou uma crise institucional abissal, crise que fez o presidente recuar rapidamente e enfrentar problemas até mesmo em sua base mais dura. Por sua vez, as ações anti-Bolsonaro viram ruas um tanto desocupadas, o MBL e o Vem Pra Rua deixaram luminar que não dispõem da força de outrora.

7 de setembro – crise institucional e Temer bombeiro

Os atos de 7 de setembro chegaram a preocupar, diversos setores da sociedade civil e política estavam atentos aos desdobramentos do dia da Independência. Contudo, não se viu nada de muito diferente, grupos bolsonaristas ocuparam alguns endereços importantes do país. Nessa ocupação, usurparam o ideário da manifestação, e usaram o espaço da democracia para pedir o seu fim. As pautas eram objetivamente antidemocráticas, atentavam contra instituições e a integridade de uma sociedade que ainda descobre o gosto da liberdade.

As ruas, em 7 de setembro, estavam um tanto mais engajadas em defesa do presidente, isso quando se compara eventos anteriores. Entretanto, deve-se frisar que foram necessários mais de dois meses de chamamento e patrocínio descarado, e público, de uma parte do empresariado que ainda navega no barco bolsonarista. Vídeos e mais vídeos de pagamentos à manifestantes circularam nas redes sociais pouco depois do início das manifestações.

É fundamental apontar, ainda, que os milhões nas ruas passou longe da realidade. De acordo com a Polícia Militar de São Paulo, na Avenida Paulista tinham cerca de 146 mil pessoas, bem distante dos 2 milhões esperados. Neste quadro surgiu o presidente da República que, sem notar o fracasso, bradou como se falasse a uma multidão. Em um discurso que se dirigia ao seu nicho, Bolsonaro avançou para longe do que Constituição estabelece.

O presidente discursou em Brasília e em São Paulo, nas duas ocasiões criticou diretamente o Supremo Tribunal Federal (STF) e os membros da corte, chegando a dizer que não cumpriria mais decisões de Alexandre de Morais. Luís Roberto Barroso, membro do STF e presidente do Superior Tribunal Eleitoral (TSE), também foi alvo de ferrenhas declarações. Bolosonaro desacreditou o sistema eleitoral e disse que só sai de Brasília preso, morto ou na vitória.

As falas do chefe do executivo abriram uma crise institucional densa, o STF falou através de Luiz Fux, presidente da Corte, e na mais forte declaração até aqui, o supremo afirmou que não se curvará e que desobediência a ordens judiciais leva a crime de responsabilidade, que deve ser analisado pelo Congresso. Na mesma linha, o TSE falou duramente, Barroso chegou a chamar o presidente de farsante.

Sentindo a crise e o fracasso, o garoto centrão, Bolsonaro, recuou e chamou um bombeiro conhecido na política nacional. Michel Temer redigiu uma carta à nação, carta esta assinada por Bolsonaro. Nela, ele se compromete agir dentro da constituição e disse, ainda, que jamais desejou agredir nenhum poder da República.

Temer é um bombeiro famoso, aperta parafusos difíceis, equilibra-se e sobrevive na política. Porém, o pseudo recuo que ele teria conseguido diante do presidente atual é mera retórica. Bolsonaro não recua dos seus desejos e sanhas autoritárias, ele está apenas assustado, é um inseto com medo da chuva. Porém, quando achar que a chuva passou, voltará a dizer tudo que sempre disse. Pois nem mesmo o fracasso das ruas o impedirá de devanear as marcas de um golpe.

Bolsonaro não tem mais governo para gerir, ele administra uma massa morta. Assim, sem legado para orgulhar-se, entregará o que sempre entregou, fará circo para o seu cercadinho, sonhando que o cercadinho também não o abandone. O Centrão ainda está no cercadinho, mas os olhares para fora dele já estão bem atentos.

12 de setembro – com pautas pulverizadas e pouca adesão da esquerda, o fora Bolsonaro pouco empolgou

Concentração de ato anti-Bolsonaro, na Av. Paulista. Foto: Reprodução Twitter

Ontem, 12, vieram os atos anti-Bolsonaro, majoritariamente convocados pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e pelo Vem Pra Rua. Os dois grupos conseguiram, em 2015 e 2016, movimentar muitas pessoas, deformar o debate público e ser parte importante do impeachment da ex-presidenta Dilma. Todavia, o que as ruas mostraram nesse domingo, 12, é que estas siglas, assim como alguns partidos, estão perdendo relevância e abrangência. Os movimentos tiveram pouca adesão.

Apesar de convocados a menos tempo que o dos bolsonaristas, os organizadores esperavam ações gigantescas, se frustraram. O que se viu foram aglomerados consideráveis de pessoas nas ruas, no entanto, distante das imagens que o Vem Pra Rua e o MBL queriam enxergar.

Os atos contra o atual governo acabaram por mostrar insuficiência, pois não conseguiram unificar as pautas. Em um ajuntado de reinvindicações, o fora Bolsonaro ficou um tanto perdido. Desta forma, sem o estabelecimento de uma pauta especifica e com o desejo de reviver rusgas políticas, os atos se viram menores do que todos poderiam imaginar.

A ausência da esquerda mais tradicional também foi sentida, siglas como PT e PSOL não se movimentaram para participar. Nesta linha, centrais sindicais importantes também optaram por não aderir. Até mesmo partidos como PDT e PCdoB, que participaram, não engajaram suas militâncias em convocações pregressas. Ou seja, faltou esquerda nas ruas, uma esquerda viva e com tradição em aglutinar multidões.

Ciro Gomes participou e chegou a discursar, adotou um tom conciliador. Seu discurso falou de liberdade, união e da necessidade de abandonar algumas diferenças em prol da luta pela democracia. Porém, as manifestações de hoje também dão um recado para Gomes, ele precisará agir mais, sair mais e falar mais (isso pode ser problemático), para juntar uma militância larga. Ciro pode ser apontado como alguém que sai ileso das manifestações, pois decidiu ir quase que de última hora, mas como deseja ser terceira via, tem muito a galgar. Pois o espectro das ruas mantém um lastro complicado de polarização. E essa polarização ainda é entre Lula e Bolsonaro.

João Doria (PSDB) também ocupou os microfones, foi vaiado. João Amoedo (NOVO) e Luiz Henrique Mandetta (DEM) também marcaram presença.

As manifestações desse domingo, 12, deixa evidente que há uma necessidade da esquerda nas ruas, especialmente se a pauta for antibolsonarista, ela aglutina e consegue levar uma multidão um pouco mais orgânica, coisa que os movimentos de direita ainda têm dificuldade de fazer. Para o campo eleitoral prático, o retrato da semana revela que a polarização ainda se estabelece como algo firme, porém, existe possibilidade de furo. Foram ações de primeiro passo, e muito ainda está por vir.

A crise institucional seguirá, a CPI covid também. Seguirão, ainda, as articulações políticas, articulações estas que podem mudar todas as peças do jogo. Política nacional é xadrez; e no xadrez, nem sempre o que vemos é o que deveríamos ver.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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