No Amapá apagou-se bem mais que as luzes

Desde a última terça, 03, o estado vive um apagão elétrico sem precedentes. Porém, a demora das autoridades e a complacência social para com a situação, mostra que muitas outras coisas estão também em modo apagão




Colunas, Paulo Junior

Na terça-feira, 03, dois eventos importantes estavam acontecendo, um era a eleição norte-americana, que vai indicar quem será o mandatário dos Estados Unidos pelos próximos quatro anos; o outro é bem mais interno e próximo de todos os brasileiros, um incêndio causado pela queda de um raio em uma das principais subestações do Amapá, deixou o estado inteiro sem luz. Repete-se, o Amapá ficou inteiramente sem luz, vivendo um dos maiores e graves apagões de sua história.

No entanto, é curioso notar algumas acepções, ao que parece parte significativa do povo brasileiro está mais voltado aos Estados Unidos do que ao Amapá. Está mais voltada a saber quem será presidente lá, do que saber se haverá energia no nortista Amapá. É surreal que um fato que isola socialmente mais de 700 mil brasileiros, seja digno somente de uma nota nos telejornais, surreal que se dedique mais tempo a elucidar os problemas da eleição norte-americana, do que a tensionar a exclusão do Norte brasileiro.

É necessário que se diga que a demora na efetivação de ações práticas para socorrer o estado é absurda, mas não é exclusiva ou inédita. A complacência para com o sofrimento alheio é sinônimo de um país que ainda não lida bem com as suas diferenças regionais, um país de origem miscigenada, mas de cotidiano segregacionista e, por vezes, reacionário.

Há muitas surrealidades neste quadro. É absurdo que se siga observando tal situação como se fosse algo isolado, de menor grau ou importância. O que ocorre no Amapá é o símbolo de um país pautado em sul e sudeste. Porque não há dúvidas que se tal concretude de apagão estivesse ocorrendo em estados destas regiões, não seria aceitável que se ficasse cinco dias sem luz, não seria aceitável que o Ministério de Minas e Energia dissesse que levará dez dias para restabelecer a ordem. Não seria aceitável uma demora de mais de 60 horas para que geradores chegassem ao estado. No sul e sudeste o quadro do Norte seria pauta de horas, de cobertura irrestrita e a fio. No caso do Amapá, o que sobra é o flash rápido e uma quase aceitação da demora em agir.

Talvez um leitor desavisado se pergunte o porquê da inquisição dessa demora, talvez esse leitor diga ser compreensível o tempo de dez dias, talvez esse leitor classifique este texto como um ataque. Porém, em qualquer quadro social, a imposição do quase isolamento é indelével, para ser mínimo. Todavia, expor uma população de mais de 700 mil pátrios nacionais a esse contexto, em um ano pandêmico, é desumano.

Desumano porque sem luz falta água em momento de lavar as mãos, falta comida, são gerados problemas de segurança, conectividade, sociabilidade. É desumano, pois os hospitais amapaenses seguiam, e seguem, lotados, tendo que dar conta de casos de Covid-19 e outros. É desumano, porque o Estado obriga seus cidadãos a viver em caos, desordem e desassistência. Para o Amapá, nos últimos dias, além da luz de casa, apagou-se a luz do Estado.

Esta luz foi apagada, porque o presidente da República não consegue dar declarações coesas sobre a situação, ela não fala objetivamente sobre o assunto e segue a vida como se estivesse em mar de rosas. Segue a vida envolto em patriotismo raso, superficial e apenas discursivo. Bolsonaro, desumano, preocupa-se mais com a eleição norte-americana do que a vida dos seus pátrios.

Quero aqui frisar que é natural, necessário e aceitável, que todos os países acompanhem e busquem entender os rumos que o pleito dos EUA irá encaminhar. Todavia, é fundamental afirmar que as autoridades brasileiras são constituídas para cuidar desta nação, seu povo e seus problemas. No momento do agora, a eleição norte-americana é detalhe, já a escuridão, a dor e o medo do Amapá são reais, factíveis e próximos.

O presidente olha para os Estados Unidos porque sabe que acaba de se isolar em contexto mundial, Trump está derrotado e Biden não será o amigo que ele sonhou. Nesse momento, fica um pouco mais nítido que Bolsonaro pode ser tudo, porém, vem passando longe da alcunha de presidente.

No seguinte, é preciso lembrar que temos um país que se cala. Se cala como se o Norte não impostasse, como se o Amapá pudesse esperar. Se cala em um silêncio ensurdecedor e secular. Essa luz da exclusão dos nortistas, e nordestinos, está apagada desde sempre. Está apagada e ao que tudo indica os movimentos de conserto da rede elétrica são lentos.

No último dia 03, terça-feira, apagou-se bem mais que as luzes no Amapá. Ali apagou-se o Estado, a demora apagou a humanidade, a distância da mídia tenta apagar a relevância e a gravidade. Apagou-se um pouco mais do senso e um tanto da noção de solidariedade. O Amapá está às escuras, mas falta bem mais que eletricidade.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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