Não quero ser gente

É do senso comum e de âmbito familiar, em especial no seio das camadas populares expressões do tipo “Se não você não estudar não será gente”, “Estuda para ser gente”, “Quem não estuda não consegue ser gente”. No campo da pedagogia, essas expressões precisam ser apuradas na sua essência, pois estão diretamente ligadas as concepções pedagógicas de educação e ao processo de manutenção e transformação social.




Coluna do Alexandre Lucas, Colunas

O que seria ser gente nesta acepção? Antes que tudo é preciso contextualizar minimamente que a educação institucionalizada assume características distintas, em sociedades divididas em classes sociais com interesses contrários, como é o caso do capitalismo. A educação para elites econômicas tem um alinhamento de manutenção da sociedade e, por conseguinte, das relações de exploração e opressão e de preparação de dirigentes para gestão econômica e política do estado. Porém, para a classe trabalhadora, a educação transita historicamente entre espaço de punição e de formação para operar os mecanismos de reprodução, acumulação e concentração do capital e de transmitir valores que legítima os interesses da classe dominante. O capitalismo vislumbra a escola para a classe trabalhadora como espaço para formação de dirigidos, comandados e gerenciados.

Entretanto, no seio da sociedade dividida em classes sociais antagônicas e em permanente luta, a concepção de educação não é única, obviamente, apesar da classe dirigente, detentora dos mecanismos políticos e econômicos, impor um discurso de neutralidade e imparcialidade de educação, como se isso fosse possível.

Neste sentido, a educação institucionalizada é também campo de disputas entre uma educação para manutenção do capital e para uma educação para além do capital, sintetizadas nas diversas concepções pedagógicas que refletem as relações entre educação, poder e modo de produção social, o que inevitavelmente repercutirá na forma (como ensinar?), no conteúdo (o que ensinar?) e no destinatário (para quem ensinar?). Essa tripartite é fundamental romper ou manter a lógica capitalista de educação.          

Ser gente, nesta perspectiva que é colocada para as camadas populares, se alinha a uma compreensão de educação que visa a manutenção do privilégio e da desigualdade social, aproxima-se de uma espécie de teologia da prosperidade financeira. Ser gente, nesta ótica e de forma camuflada, aparece como a expressão “cuide-se de si e lasque-se os outros”. Nesta vertente cheia de boas intenções, a princípio, o ser gente, é antes que tudo o indivíduo espelhado no capitalista, ou seja, com poder de comprar e inserido no circuito afetivo do capitalismo.        

Portanto, ser gente, neste viés abordado, não é sinônimo de ser uma pessoa melhor, capaz de dividir conhecimentos, constituir senso de justiça social e solidariedade, de rompe com a lógica de exclusão e estratificação econômica e social. Ser gente é algo muito perverso, apesar de vir carregado de uma pretensão aparentemente louvável.

Mas ser esse tipo de gente, não se encaixa, numa perspectiva de educação revolucionária (transformadora) que sirva ao processo de emancipação humana e transformação social da classe trabalhadora, uma educação que que tenha o conhecimento científico historicamente produzido pela humanidade, alinhado a prática social dos indivíduos, como substrato primário para democratização da escola destinada as filhas e filhos da classe trabalhadora.  

Por outro lado, a escola por si só não transforma a realidade social: ela não é o principal vetor ideológico do capital, não pode ser percebida como alternativa emancipatória para conjunto da sociedade, no âmbito da educação orientada política, econômica e ideologicamente pelo capital.   
A luta pela democratização da escola pública deve ser entendida como parte da luta pela democratização radical da sociedade, em que a classe trabalhadora conquiste a gestão econômica e política da sociedade e que ser gente ganhe a conotação de emancipação, solidariedade e socialismo, pois, afinal, é uma escola socialista que propõe ser gente para dividir e transformar.

Sobre Alexandre Lucas

Pedagogo, Presidente do Conselho Municipal de Políticas do Crato-CE, integrante do Coletivo Camaradas e da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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