Milton Ribeiro ensaia para ser pior que Weintraub

Ribeiro assumiu a pasta após a pior gestão da história, Weintraub sucateou o MEC e o aparelhou até o último degrau. Se pensou que não poderia ser pior, mas o atual ministro é bastante esforçado.




Colunas, Paulo Junior

É entendimento de senso comum que não existe país sem educação, não existe sociedade mais justa, humana e comprometida consigo sem as bases sólidas de um sistema educacional acolhedor, plural e eficaz. Contudo, pensar as marcas do ensino como aspectos prioritários sempre foi uma das maiores dificuldades da classe política brasileira. Hoje, não existe nem mesmo um vago pensamento da prioridade. A educação nacional está subalternizada, diminuída no marco emancipador. O atual Ministro da Educação, Milton Ribeiro, vem escancarando a sua incapacidade para o cargo, e ao mesmo tempo prova ser capaz de seguir a cartilha abissal do bolsonarismo mais raiz.

Envolvido em declarações no mínimo ignorantes, Milton Ribeiro vem mostrando que é possível haver ministro da Educação pior que Weintraub. Aquele que tinha tudo para ser o pior nome que já ocupou a pasta, agora tem um concorrente a sua altura. Milton solta atrocidades com uma capacidade surpreendente, diz que homossexuais são vítimas de famílias desajustadas, que crianças com deficiência atrapalham o ensino. Não contente com isso, afirma que a universidade deve ser para poucos e que o diploma de nada adianta, em seguida emenda o desajuste com a categórica necessidade de mão de obra técnica qualificada. Há um plano em execução.

Os atuais gestores da educação brasileira são marcados por um senso de compreensão que não é capaz de alcançar o século XX, provavelmente as referências deles, se que elas existem, datam de quando sequer havia vida pela terra. Eles se guiam pelo vazio, pelo entendimento mais raso e ignóbil possível.

Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação. A gestão Weintraub foi marcada por polêmicas e incoerências na condução da pasta. Foto: Portal Metropólis.

As falas do ministro acirram a segregação no ambiente escolar. Jovens LGBTQIA+ e pessoas com deficiência já são, normalmente, vítimas de situações constrangedoras, e quando as políticas públicas de inclusão, e discussão social, dessas temáticas é desqualificada pela principal autoridade educacional do país, este quadro de exclusão tende a piorar. As posições do (in)gestor conseguem, tranquilamente, ultrapassar o limite do absurdo.

No plano, há também, o desejo de encastelar o ensino superior, reduzido o acesso a uma casta de privilegiados. Ou seja, o ambiente acadêmico seria novamente povoado quase que exclusivamente por uma elite financeira. Porém, das incoerências do Brasil, a elite financeira não é a mesma elite intelectual, assim, este espaço está sempre em tensionamento, ainda mais quando outras camadas da população passam a ocupar este local.

O ensino superior de qualidade, gratuito e amplo deve ser obrigação do Estado. O diploma não deve ser direcionado a uma linha de selecionados, mas deve estar acessível a todos aqueles que desejarem busca-lo. Contudo, o ministro anseia pela separação, quer a elite financeira na universidade, guiando bases da economia do saber, enquanto a classe média e os pobres nacionais se contentam com o curso técnico. Frisa-se que aqui não há demérito, o ponto central é a exclusão de possibilidades, não se pode dizer que a um se permite o grau mais alto e a outro apenas uma alternativa. Em um Estado descente o cidadão tem a possibilidade de escolher o seu caminho, sendo senhor de si, ao invés de caminhar por uma trilha já trafegada por tantos outros.

E assim, enquanto o atual (in)gestor da educação nacional profere atrocidades, o MEC segue sendo aparelhado. O orçamento deste ano chegou a não prever recurso para o Enem, em seguida se afirmou que o exame teria um tribunal ideológico, a fim de evitar questões com este cunho. Não bastasse isso, o MEC se absteve de discussões sobre o acesso a internet durante a pandemia, da formação clara de protocolos de segurança sanitária. E no fim, sem planejamento, quer exigir salas cheias e turmas lotadas. O Ministério está entregue ao negacionismo, a inflexão dos que não sabem o valor da ciência, da palavra, do professor.

Porém, a ignorância não resiste durante muito tempo quando exposta a luz flamejante do saber. Educação é passarinho, ela voa, liberta e se liberta. Como escrevia Mário Quintana: Todos esses que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão … Eu passarinho.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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