Fome, solidariedade e organização popular

O momento é de solidariedade, aliás, a solidariedade deveria ser um sentimento e um ato trivial e não uma ação excepcional.




Coluna do Alexandre Lucas, Colunas

Comer é uma necessidade vital! A comida compõe a agenda dos direitos constitucionais, entretanto, sofre ataques frontais com a política genocida e de aprofundamento da crise econômica capitaneada pelo Governo Bolsonaro. A pandemia tem sido um termômetro da morte e da fome.  Enquanto os movimentos sociais e os partidos do campo democrático e popular defendem um auxílio emergencial de R$ 600,00, a base guiada pelo bolsonarismo luta pela redução/extinção do auxílio. A manutenção das vidas segue cada vez mais cara, o aumento dos produtos não é condizente com o desemprego e o crescimento salarial.

Vão se multiplicado em todo o país ondas de solidariedade para reduzir os impactos da forme. Grupos criam estratégias e formas de organização diversas para arrecadar alimentos. O momento é de solidariedade, aliás, a solidariedade deveria ser um sentimento e um ato trivial e não uma ação excepcional.

O alimento que chega em cada casa é um alento de esperança, mesmo que momentâneo. É importante chegar comida para a manutenção das vidas e ao mesmo tempo se faz necessário refletir sobre os caminhos da solidariedade e de organização popular que podem conduzir essa luta.

Historicamente as camadas populares, em especial, as situadas nas chamadas áreas periféricas das cidades, é percebida como “carente”, “coitada”, incapaz de gerir suas lutas por melhores condições de vida, prerrogativa para criar uma linha condutora ilusória, viciosa e dependente, tendo o assistencialismo e a caridade como ação de violência invisível, eleitoral e de adestramento político.

É preciso que o campo democrático e popular se insira de forma orgânica nas lutas de solidariedade por comida e dignidade, neste momento em que a instabilidade do emprego, da comida e da vida se faz presente.

A nossa solidariedade e a nossa luta, não podem ser a mesma, que violentou ao longo dos anos e continua violentando as populações excluídas do direito à cidade.

A nossa luta deve ser construída com os que não conseguem adquirir o seu próprio alimento. As camadas populares devem se ver como parte do processo de construção da solidariedade e da organização popular. Esse caráter político e pedagógico, pode ser um instrumento importante para a luta contra o círculo maléfico do assistencialismo e da caridade, que aniquila a autoestima e a capacidade do protagonismo para a sobrevivência.

A solidariedade que defendemos deve resgatar o sentimento comunitário, o espirito coletivo e colaborativo, o humanismo, a insatisfação racional contra a injustiça e a desigualdade social e a capacidade política de organização.  

É preciso perceber as camadas populares como capazes de desenvolverem os seus processos de salvação. O discurso de carente, que gerou prejuízos históricos, não devem caber nas nossas fileiras de solidariedade. Vamos substituindo nas nossas lutas, a visão de carente por potente.

Sobre Alexandre Lucas

Pedagogo, Presidente do Conselho Municipal de Políticas do Crato-CE, integrante do Coletivo Camaradas e da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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