Entre o “Brasil oficial” e o “Brasil real”: Ariano

Dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta, professor, Ariano Suassuna (nome dado pelos pais em homenagem a São Ariano do Egito) nasceu em 16 de junho de 1927, na cidade de João Pessoa, Paraíba.




Coluna Literária, Colunas

Idealizador do Movimento Armonial, que se propunha a realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares, defensor ardoroso da cultura do Nordeste, Ariano Suassuna foi, antes de tudo, um menino que perdeu o pai João Suassuna (assassinato por motivos políticos) e resolveu protestar com a única arma que dispunha, “o riso a cavalo e o galope do sonho” e, dessa forma, não deixar que sua memória morresse. 

Ariano nasceu, cresceu e morreu no “Coração do Brasil”, o Nordeste brasileiro, na companhia dos livros, escutando as cantorias, narrativas de cordéis e desafios de viola, frequentando o teatro de mamulengos e o circo, vendo passar na porta de sua casa retirantes fugindo da seca. Todas essas vivências foram transmutadas em arte literária.

Artista múltiplo, conviveu com diversas manifestações artísticas, mas a Literatura parece-me ser a mais forte. Talvez porque estejamos falando de linguagem e se linguagem é poder, consequentemente, literatura é poder. Ela não reproduz o que foi dito ou o que está posto; é criação, é subversão, é desordem. Homem das letras, professor dos Departamentos de História e de Teoria da Arte e Expressão Artística da Universidade Federal do Pernambuco, Ariano não aceitava a segregação que as elites impunham à arte brasileira, por isso criticava a cultura acadêmica do “Brasil oficial”, que afastava aqueles sem poder aquisitivo, mas que representavam e sustentavam com a força de seu trabalho o “Brasil real”.

Seu primeiro texto, uma peça de teatro, veio a lume em 1947 – “Uma mulher vestida de sol”, baseada num romance do sertão. Não parou mais. Em 1953, publicou “O castigo da soberba”, em 1954, “O rico avarento” e, no ano seguinte, se consagraria com “O Auto da Compadecida” considerado por Sábato Magaldi como “o texto mais popular do Moderno Teatro brasileiro”. O universo literário de Ariano, formado por elementos essencialmente nordestinos e do folclore, é povoado por personagens que irradiam o riso, como é o caso de João Grilo e Chicó. Ariano cresceu com o riso dos palhaços e, desde então, passou a acreditar que para aumentar a alegria do mundo era necessário sorrir. 

Em 1971, Ariano presenteia-nos com o “Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, adaptado para o teatro, o cinema e a TV, que coloca lado a lado duas tradições: a tradição mítico-sertaneja e a tradição erudita. Na concepção do poeta “gauche” Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), trata-se de um “romance-memorial-poema-folhetim” narrado pelo seu protagonista, Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna, um Dom Quixote brasileiro. Assim como o sol do sertão é abrasador, a leitura de “A Pedra do Reino” também o é.

Apesar da dura realidade do sertão, Ariano fez a opção pela alegria, pela leveza e pelo riso por acreditar, como um Nordestino genuíno, que é possível buscar a felicidade apesar das adversidades. A esse “mentiroso profissional”, “inventador de histórias”, muitos risos. Oxente!

Sobre Luciana Bessa

Doutora em Letras pela Universidade Federal do Ceará e Coordenadora da Roda de Poesia do Coletivo Camaradas

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