E a Televisão brasileira chega aos 70 anos

As ondas da TV têm papel fundamental na história recente do país, ela mudou a forma de consumir informação e entretenimento, mudou, também, o modo como cada brasileiro se relaciona com as grandes questões nacionais




Colunas, Paulo Junior

O tempo passa e quase que de modo automático, muitas vezes, não nos damos conta dele, não vemos sua extensão, seu largo, lastro, o seu passar. E assim, no correr do tempo passaram-se 70 anos. Mas são 70 anos de que? 70 anos que a televisão chegou ao Brasil, que ele se firmou e alastrou-se. Provavelmente, como tudo que é novo, os pensamentos de 1950 não dariam conta do tamanho que este veículo tomou.

A televisão brasileira chega as sete décadas vendo objetivamente a necessidade de renovação, tanto pelo fazer televisivo, quanto através do público. Voltar ao 18 de setembro de 1950, certamente, seria uma viagem nostálgica, observar a chegada dos equipamentos e a primeira transmissão da TV Tupi reascenderia, mais uma vez, a paixão nacional que vigora por aquela tela.

As ondas da TV têm papel fundamental na história recente do país, ela mudou a forma de consumir informação e entretenimento, mudou, também, o modo como cada brasileiro se relaciona com as grandes questões nacionais. Sem dúvida nenhuma, a realidade nacional observa novas nuances após a consolidação da TV enquanto meio. Em 1950 idealizou-se impensado o reinado dela nos lares brasileiros, por sua vez, o que se nota hoje é uma, ainda, firme e constante presença. Segundo dados de IBGE de 2018, apenas 2,8% das casas brasileiras não possuíam televisão.

A potência da TV aberta no Brasil é algo verdadeiramente singular, em uma país com poucas possibilidades acessíveis de entretenimento, acesso a cultura, informação e jornalismo, a tv acaba por ocupar fortemente esse espaço. Nesse seguimento, essa ocupação nem sempre será benfazeja, mas segue sendo persistente. Persistência comprovada por dados recentes, que indicam diminuição da perda de público das emissoras e, em alguns casos, ganho de audiência.

Apesar da inserção inegável, a televisão brasileira bebe de problemas constantes, problemas que datam de sua origem e expansão. Atualmente a difusão televisiva está concentrada em cinco grandes redes, logo, cinco famílias detém parte significativa da comunicação brasileira. Fato que assusta, pois tende a afastar acentuações de contraditório, ou mesmo o imbricamento entre atividades de interesse privado e público. Situação altamente complexa, já que apesar das frequências de funcionamento das emissoras dependerem de outorga federal, elas continuam sendo empresas privadas. Portanto, dotadas de interesses de ordem econômica, lucrativa e de influência.

Nestes 70 anos será possível encontrar uma vastidão inquestionável de situações que coadunam esta questão. Que indicam o eterno imbróglio entre a percepção do público e do privado, entre o que interessa o público e aquilo que é de interesse público.

A televisão no Brasil já percorreu um caminho longo, e ainda tem muito a percorrer, aprender, dialogar e produzir. Hoje, ao fazer setenta anos, ela se vê um pouco saudosista, nostálgica e, talvez, reflexiva. Datas fechadas são sempre um bom momento de reviravolta, de reinvenção e redescoberta.

A TV no Brasil, e no mundo, está sempre envolvida em um jogo de difícil equilíbrio, montar uma equação de estabilize o lobby das grandes redes, os anunciantes, a liberdade editorial e um catalogo de produção capaz de refletir a diversidade nacional. Esta equalização costuma ser problemática e raramente encontra seu equilíbrio, tanto que é normal ver igrejas alugando até 50% das programações de emissoras abertas, assim como é costumeiro notar canais que ao invés de produzirem jornalismo, fazem relações públicas.

Não é algo simples, nunca foi ou será, manter um canal de TV no ar, conseguir preencher 24 horas de programação, ser relevante, pautar o dia a dia e ser pautado por ele. É trabalhoso encontrar meios, e métodos, capazes de conversar com um público que é tão vasto, plural, singular e diferenciado. Este é o público da TV aberta brasileira. Público que, na contramão de algumas observações, continua fiel a programas clássicos e a TV posta na sala de casa. As emissoras que conseguem/conseguiram encontrar o meio termo que agrada a essa massa se mantém intactas e, em pleno 2020, ainda quase inatingíveis.

A comunicação brasileira, em geral, precisa enfrentar de modo coerente o debate sobre a concentração de veículos de comunicação, e assim, o centramento das narrativas e o posterior cerceamento de vozes, percepções, acepções e culturas. A televisão, desde sua origem, e até hoje, ocupa parte fundamental deste debate, pois destes 70 anos, ela viveu/vive 50 em uma posição de profunda responsabilidade, a de falar mais e diretamente com o cidadão do cotidiano.

Em 70 anos de história há louros a se comemorar, pontos inclusive já citados, a TV redefine positivamente a relação do brasileiro com a política, ela o aproxima das decisões diárias e descomplica discussões que atingem o trabalhador. A informação, e o próprio jornalismo são outros graças a TV. Por sua tela passou quase tudo que moveu a sociedade nos últimos anos, foi pioneira que inserir-se e debater diversos assuntos. Mas também errou ao reafirmar estigmas, preconceitos, dogmas e visões rasas de estereótipos. 70 anos depois espera-se evolução.

Em sete décadas há um novo olhar para o entretenimento, das novelas aos filmes, dos programas de culinária aos vespertinos. A televisão tem em seu passado diversas glórias, a construção de nomes que seguem marcando a vida de todos, artistas estiveram/estão nas salas de estar pelo Brasil, dos personagens de Chico Anísio, aos bordões de Jô Soares. Das novelas as séries. Dos debates aos programas dominicais.

Em 70 anos a TV hoje sente a urgência de renovar-se, de rever seus meios e modos de produção de conteúdo, observa a concorrência da internet e do streaming. No entanto, ainda nota os movimentos de um lugar cômodo, e observando dá novos passos para o seu seguimento. Aos soprar as velas de hoje, a TV brasileira diz categoricamente que não morrerá. Seu fim não está próximo. Ela segue se refazendo e entrando sem pedir licença nos lares nacionais. Há uma relação íntima entre o aparelho que tanto mudou e os ocupantes do lar. Seu público, como dito no início, precisa se renovar, e isso vem ocorrendo diuturnamente. A TV não morrerá e hoje, ao completar 70 anos, aparentemente, já planeja os próximos setenta.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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