E a imprensa segue sob ataque

O esquema revelado na prefeitura do Rio de Janeiro mostra que o jornalismo se mantém sob agressão, em diversos níveis e formas




Entre os primeiros textos desta coluna, um deles fez questão de destacar o papel fundamental da mídia, para real vivência de um Estado democrático coerente. Um Estado que verdadeiramente defende os preceitos básicos postulados na constituição, a liberdade de expressão e de imprensa. Esta coluna não se calará diante de atos que buscam, seguidamente, intimidar o fazer jornalístico, a busca pela informação e o direito do cidadão de questionar e criticar.

Os atos que foram tornados públicos na última segunda-feira, 31 de agosto, são aberrantes, havia um esquema de ataque a jornalistas montado no seio da prefeitura do Rio de Janeiro, esquema que ao que tudo indica contava com a nuência e o apoio do prefeito da cidade, Marcelo Crivella. Organizados em grupos de troca de mensagens, os membros eram diariamente informados sobre quais espaços deveriam vigiar, preferencialmente optava-se por hospitais, devido o aumento do número de reclamações populares.

São vastos os momentos de interrupção, xingamento e quase agressão física documentados até o momento. Repórteres e cidadãos calados do seu direito de dizer das insatisfações, privadas e coletivas. O esquema revelado na cidade do Rio de Janeiro ultrapassa o absurdo, não se vislumbram adjetivos capazes de dar conta da desfaçatez evidenciada. Os guardiões do Crivella, como foram identificados, chegavam a ganhar até R$4.186,00, enquanto um enfermeiro contratado para hospitais da campanha da cidade está recebendo cerca de R$4.088,00. A gestão Crivella preocupa-se mais em calar o cidadão do que em preservar sua vida.

Em meio a tudo isso, esperava-se a negativa da prefeitura, esperava-se a construção de uma justificativa fantasiosa. Porém, diante da surrealidade do fato, nem a prefeitura conseguiu desmentir, soltou uma nota vazia, que pouco diz, enquanto o prefeito assume um lugar que conhece bem, o silêncio.

Aqui é preciso dizer da gravidade que vem sendo observada no que tange ao papel da imprensa, ser jornalista no Brasil tem se tornado profissão de risco. Profissionais são desrespeitados e agredidos quase que diariamente. Esse fato não pode ser comum. O jornalismo deve sempre ter função de contrapoder. Jornalismo questiona, indaga, nega o silêncio. Fazer isso é parte do roteiro profissional.

Entretanto, tem sido árduo nos últimos tempos, a escalada autoritária atinge muitos pilares, um deles é esse. Porque silenciar a mídia é calar o ente da sociedade. O Rio de Janeiro, tanto cidade quanto estado, vivem a sua distopia diária, a sua série de roteiro aloprado, em que prefeitos usam ao bel prazer o dinheiro público, e onde os governadores são seguidamente afastados e presos. No entanto, existem outras distopias pelo Brasil, o próprio país vive a sua.

Olhar as cenas transmitidas neste começo de semana é relembrar as fatídicas entrevistas do Presidente na saída do Alvorada. Quantos ataques foram proferidos ali? Quantos jornalistas ameaçados? Quantos veículos mídia intimidados? Quantas teorias irreais proclamadas?

Bolsonaro se julga no direito de agredir baseado em pseudo saberes, baseado em uma eterna ausência de decoro. Agora, Crivella também mostra as garras e ataca publicamente. Entretanto, é preciso refletir ainda mais sobre os ataques expostos, pensar sobre o local em que eles se fazem. Os ataques foram proferidos em um local com presença massiva de fortes marcas de comunicação, logo, há maior possibilidade de debate e de exposição das aberrações realizadas com o recurso público. Mas é preciso pensar sobre os interiores, lugares em que ainda vigora, muitas vezes, a figura coronelística, onde a liberdade de imprensa é unicamente um sonho, pois o profissional está sempre buscando a sua própria vida.

É uma luta diária e constante, não se findará hoje ou amanhã, mas expor as atrocidades e os ataques aos veículos de mídia, e aos profissionais jornalistas, é uma necessidade. É preciso liberdade de imprensa, expressão. É preciso que o profissional da notícia possa trabalhar com menos medo, que o Brasil não seja um dos países que mais mata jornalistas.

Os sistemáticos ataques a mídia, e aos seus integrantes, já não são mais a ponta do iceberg, são parte importante do interior dessa rocha de gelo, ainda mais quando são vistas sucessivas decisões judiciais que assumem, a seu modo, um caráter de censura prévia, impedindo materiais de serem veiculadas.

A organicidade de ações de ataque e censura em múltiplos níveis denota as complicações do momento atual, a eterna manutenção do pensamento de crise e a busca ininterrupta de salvadores da pátria. Nesta busca por heróis alguns lugares tendem a ser mais atingidos, especialmente aqueles que podem dizer que o herói não existe.

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Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA e um apaixonado por política, literatura e cinema

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