De quando me percebi negro

Relutei em publicar esta crônica, ela tem tons pessoais. Porém, creio que o desabafo também é importante. Este texto foi escrito no último dia 20 de novembro.




Colunas, Paulo Junior

Se me questionarem o porquê da minha escrita, eu certamente não terei uma resposta efetiva, pronta ou milimetricamente pensada. Eu escrevo por motivos mil e por outros que ainda desconheço. Escrevo porque meu corpo pede, minha mente clama, minhas sensações me levam. Escrevo como forma de colocar para fora aquilo que me alegra ou me consome por dentro.

Eu diria que hoje eu escrevo diante dessas duas faces, há nuances de alegria em mim, mas também há um ácido que me coroe lentamente, e faz doer feridas que eu sequer sabia que estavam abertas. Nas teclas do computador, no cursor que anda e preenche as vozes da minha cabeça, me sinto um pouco mais liberto, solto, livre.

Incrível, esse dia que é de luta, resistência, crítica, consciência negra; começou com morte. Lembro-me de acordar, ler as notícias e ver o nome de João Alberto, em seguida tenho certeza de sua negritude, e sinto a dor da crueldade que lhe abateu. João Alberto morreu por ser negro, morreu porque outros acharam que a sua vida era pequena, ou que ela sequer tinha valor. João Alberto foi morto por uma ignorância racista que se entende superior. Ele foi morto na busca do silêncio, porque para muitos essa voz negra não poderia gritar, e dizer não.

Essa dor vem remoendo meus pensamentos durante todo o dia, remoendo minha carne, que dizem ser a mais barata. Essa dor vem me consumindo; consome porque amanhã a vítima pode ser próxima, amiga, irmã. Pode ser que a vítima seja eu.

Em declaração dada agora a pouco, o vice-presidente da República disse que não há racismo no Brasil. Para ele não é racismo espancar até a morte, não é racismo matar diariamente, não é racismo excluir e não dar oportunidades, não é racismo silenciar. Para o vice-presidente não é racismo calar, não é racismo achar normal a morte de um semelhante, não é racismo que a minha cor defina o meu espaço.

Ser negro no Brasil é ser desde cedo apresentado a exclusão. Desde cedo se aprende a ser duro e a lutar como se não houvesse amanhã. Ser negro no Brasil é ser ensinado a estar sempre em modo alerta, levantar as mãos na primeira solicitação. Ser negro no Brasil é torcer para não ser confundido com outro alguém, e aí ser morto ou espancado. Ser negro no Brasil é não ver nossa cor estampada, e sentir-se a margem quando devíamos ser o centro. Ser negro no Brasil é evitar correr, para não gerar desconfiança. Ser negro no Brasil é ter que provar todos os dias a nossa capacidade, é lutar para em 2020 ainda romper as correntes. Ser negro no Brasil é ser subjugado, escanteado, esquecido. Ser negro no Brasil é viver o racismo diário, e ouvir alguém dizer que não há racismo.

No Brasil mal resolvido com as suas questões, o colorismo é a válvula de negação à negritude, seguidamente não se é negro, mas diz-se pardo, moreno… no Brasil mal resolvido existe uma escada de cores, e quanto mais próximo do branco, e distante do preto, melhor. Melhor para quem?

Ser negro no Brasil é ser ensinado, em alguma medida, a negar a si mesmo. Nos dizem para não dizer do nosso tom, e assim, as bases racistas começam desde cedo a nos despossuir de nós. Aos poucos, e devagar, somos tirados de nós, deixamos de ser donos do nosso corpo e da nossa história. E esse despossuir de si, somente se rompe com o entendimento da negritude. Quando me percebi negro, também me percebi vilipendiado, invadido, tirado de mim. Lembro dos momentos que chorei ao perceber um olhar torto, ou algum gesto vago que há época parecia sem justificativa, mas que hoje encontra sua origem em quem sou.

Lembro de quando me percebi negro, lembro das lágrimas que ainda rolam em meu rosto. Lágrimas de dor, medo, angústia e sofrer. Sofrer do hoje, ontem e amanhã. Mas também lembro dos abraços, do conforto de alguns colos e das palavras que ainda ressoam em mim.

Como cantou Gil, o amor é uma semente. A resistência também. Essa semente resistência reside nos dias a eternidade, reside nos encontros, nos abraços, nas leituras. Essa semente reside nas conversas que me afagam e me dão gosto a viver, agir e resistir. Lembro de falas potentes que ouvi e vivi nos corredores e nas salas da UFCA (Universidade Federal do Cariri). A universidade, quando nos possibilitam entrar, também nos liberta e nos faz encontrar conosco.

A manhã foi fria, tensa. Lembro-me que sai para pagar contas, na fila da lotérica vi duas crianças negras, elas se cuidavam, se acarinhavam, eram duas irmãs. Aquela cena durou uns dez minutos, elas estavam lá sentadas, uma delas repousou a cabeça sobre o colo da outra, em seguida em gesto de afeto a irmã mais velha lhe fez carinho, ajeitou sua máscara, passou álcool gel em suas mãos. E eu me contendo. Em seguida a mãe chegou, as abraçou e sorriu, saíram as três de mãos dadas, meus olhos marejaram. Marejaram porque esta era a cena que eu precisava ver. Em dia de morte cruel, precisei ver vida em abundância. Precisei ver Andressa*, Elane*, Acácio* e Cauê* falando e gritando de nós, um grito que é tão alto e tão belo. Aquilo me emocionou, e eu sorri pelos olhos. Olhos banhados, transbordados.

Escrevo para que nas páginas que saem de mim eu possa ao menos por um segundo respirar, me sentir ajudado e menos angustiado. Escrevo com motivo e sem motivo, com grito e com silêncio, com fala e com a voz embargada. Escrevo com olhos banhados e secos, escrevo e escrevo.

 Ser negro é escrever, escrever e escrever. Escrever vida quando nos querem mortos, escrever vivência quando nos negam, escrever sorriso quando nos querem tristes, escrever amor quando querem ódio. Ser negro é escrever realidade quando subjetivo, e ser subjetivo quando querem realidade. Ser negro é dar a mão ao irmão negro, é libertar-se junto.

Agora toca Tim Maia, e eu acredito que o mundo ainda vai nos ouvir e entender que temos muito a contar. Quando me entendi negro, me entendi de mãos dadas com outros iguais a mim, e sinto que eles estão me segurando agora. São eles que secam as lágrimas que corre em meu rosto, são eles que dizem: Vamos.

Termino pensando, no alto da minha utopia, que em breve não precisaremos sair as ruas de mãos erguidas. Mantenho o sonho de que no futuro próximo a cor da pele deixará de ser um chamado a violência. Eu sonho porque é esse sonho que mantém ainda sorrindo, é esse sonho que me dar forças para sair e agir. E é esse sonho que pesa quando fico quieto e não faço. Termino sonhando que a nossa revolução está chegando, ela vem por mãos pretas, que de punhos cerrados levantam-se e dizem: NÃO.

Tudo mudou quando me olhei no espelho e me vi preto. Meu passado mudou, meu presente mudou. E eu espero um amanhã mudado, com menos mortes e mais vidas. Vidas pretas como a de Alberto, Ágata, João Pedro, Amarildo, Marielle …

*Os citados participaram de um evento online promovido pelo Limbo (Laboratório de Imagem e Estéticas Comunicacionais ).

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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