Costureira do escuro

A noite estava mais escura, as luzes dos postes e das casas deviam ter se cansado ou se reuniram para fazer greve. Quando as luzes se apagam, sem a nossa vontade, os que estão espalhados se juntam, parece até que o escuro é perverso ou que ele tira nossos olhos e nossa coragem.




Coluna do Alexandre Lucas, Colunas

Tinha uma vela acessa no meio da sala, parecia até uma fogueira, mas não fazem fogueira no meio da sala. Fogueira em casa é incêndio. Enquanto a vela chorava no meio da sala e seu tamanho ia diminuindo, três rostos se viam, semelhantes aquelas fotos preto e branco, em que os rostos pegam o escuro para fazer de cortina. 
Enquanto as luzes não eram acesas, tinha aquela vela, que parecia uma fogueira dentro de casa, estava aquecendo aqueles três rostos e suas imaginações. 
Enquanto a vela se derretia, uma senhora costurava suas memórias, falava de sapos, banhos de rios, frutas, escuro e de gente. Ela conseguia costurar tudo, como as roupas que costurava com tranquilidade e cuidado.
Os dois rostos ficavam atentos, a cada palavra daquela senhora, que falava baixinho, quanto mais baixo ela falava mais era compreendida.
O desejo era que as luzes dormissem mais um pouco, enquanto aquela senhora costurasse e  recosturasse suas memórias.  
A luz continuava apagada, já não tinha mais vela e a luz das daquelas palavras clareavam a imaginação. Por muitos anos, quando as luzes se apagavam por vontade própria, aqueles rostos se reuniam e acendiam uma vela no meio da sala para escutar a senhora que costurava suas memórias no escuro. 

Sobre Alexandre Lucas

Pedagogo, Presidente do Conselho Municipal de Políticas do Crato-CE, integrante do Coletivo Camaradas e da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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