Carta à 2021

Meio sem querer as expectativas já estão postas. Assim, espera-se que o ano que chega seja um tanto mais belo e marcado por vacinas




Colunas, Paulo Junior

Escrevo, porque sinto verdadeiramente que preciso te dizer algo. Não poderia simplesmente passar por este ciclo sem destinar ao menos alguns minutos para te escrever. Começo, desde já, te pedindo desculpas, eu sei das expectativas que estão postas sobre ti. Ao te pedir desculpas, também peço que compreenda nossas expectativas, elas existem porque os últimos dias têm sido bastante difíceis e tortuosos.

Lembro de quando ainda era janeiro e as pessoas sorriam ao fazer dezenas de planos, elas o farão novamente, todos farão. Farão porque em tempos de travessia complexa o ano novo tende a ser a porta da esperança. Teus primeiros dias serão ainda muito complicados, os primeiros meses também. Porém, como já venho pedindo outras coisas, peço para que mantenha o esperançar vivo, peço que, além das lágrimas, tu possas se apegar aos sorrisos que hão de vir ao teu encontro.

Eu tenho estado muito pensativo, coisas de fim de ano, nesses momentos a gente revisita os doze meses vividos como se eles fossem o todo da vida, para mim, eles são um pouco o todo da vida. Eu saio deste ano tão marcado, estas marcas são múltiplas e dispersas, elas abarcam, verdadeiramente, cada segundo que pôde ser vivido, cada dor sentida e cada sorriso dado. Sim, houveram sorrisos, infelizmente, eles foram um tanto menos do que deveriam ter sido.

Não se preocupe, eu entendo que em você deve estar gritando uma voz de medo, em mim também está. Você deve estar se questionando se os seus dias darão conta do ano que está por vir, dos desejos, lutas e renascimentos; eu te digo que não tenho resposta para te oferecer, sei somente que os planos traçados, às vezes, não correm como devido. Porém, também surgem gargalhadas inesperadas no caminho. Vejo algumas gargalhadas no teu trajeto.

Não tenha medo, teus dias começam sem os clássicos fogos de artifícios, mas começarão com o lampejar de outras luzes. Luzes internas dos muitos seres de fraternidade que por aí habitam.

Volto ao quadro de expectativas, aqui peço perdão, pois meu sonho é deveras audacioso. Sonho que nos meses que te povoam haja crença na ciência, que a humanidade se mostre viva no sentido plural da palavra. Viva de vida, de afeto, de amor e sem medos. Sonho que as máscaras que cobrem os rostos sejam ajustadas, que os negacionistas entendam essa vida em plural, e que aqueles que te vivam sejam tocados; tocados por uma agulha fina e que deixa uma leva picada, a vacina.

Mas calma, sei que é muito sonho, pois ainda sonho mais e mais. Sonho que haja carinho e que ele seja sentido de todas as formas. Sonho que aos poucos a gente possa se tocar novamente, e que quando estiveres escrevendo a 2022, possa recomendar pulos e abraços durante o momento da virada.

Meus meses foram duros, ser 2020 não é fácil, há alguns grandes pesos sobre mim. Você dirá que é a pandemia, mas não se trata apenas dela. Minhas maiores dores estão nas vidas que eu perdi pela irresponsabilidade alheia, pela ausência dos líderes vazios e pela ignorância de alguns seres do cotidiano. Eu tentei agir, foram muitas as palavras, as indignações, os atos, os gritos, mas ainda há muito a ser feito. Meu trajeto está acabando.

Eu te escrevo, porque preciso que sigas lutando, agindo. Preciso que tu não se entregues ao primeiro devaneio louco que te seja apresentado.

Provavelmente você deve estar me achando louco, te mandar uma carta a essa altura da vida, mas como poeticamente escreveu Fernando Pessoa: As cartas de amor, se há amor, tem de ser ridículas. Assim, te digo que não sou louco, sou ridículo. Ridículos de amores e de crença no ato de esperançar. Por isso, anseio que estejas firme, que as bizarrices que serão proferidas possam ser superadas. Desejo que os meses da tua vida sejam marcados pela retomada ainda mais vibrante do bom pensar, esse bom pensar que tanto fez por mim durante os meus dias.

O bom pensar que citei não é o meu devaneio, talvez o seja, se o for é um devaneio possível. Pois é o pensar da ciência, da educação, da política com decência e humanidade, é o pensar dos líderes que sabem o seu papel. É o pensar de um amanhã florido, menos desumano e mais abrangente. É o pensar da vida plural, viva, vibrante, vivente.

Eu, 2020, vivo agora as minhas últimas horas, parto para um lugar que ainda não sei qual será. Sei apenas que estarei posto na história e assim serei lembrado, certamente ficarei gravado como ano da pandemia, como um ano de muitas dores e eternas nuances de sofrimento. No entanto, te peço que faça dos meses que te banham uma linha de batalha, e batalhe. Batalhe para que 2021 seja o ano do reencontro, dos abraços, dos beijos e dos cheiros tão falados. Meu caro 2021, eu quero te ter ao meu  lado, mas quero que a tua história tenha o dobro, triplo, quadruplo… de sorrisos, bons momentos e alegrias que eu, sendo 2020, pude assistir e vivenciar.

Agora, falo a você, que aleatoriamente lê esta correspondência, seja parte deste 2021 novo, diferente, de recomeço. Faça deste novo ciclo um lugar de redescoberta. Eu estarei aqui, olhando e torcendo para que tudo encontre um novo rumo, torcendo pela vacina, torcendo por um ano de aconchego.

Com votos de vacinação em massa;

2020.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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