Campanhas iniciadas, o que esperar das eleições municipais

As disputas locais normalmente estão distantes do quadro nacional, focando em questões de cunho citadino. Porém, em 2020 os pleitos municipais são uma nova instância das eleições gerais




Colunas, Paulo Junior

O último domingo, 27 de setembro, foi marcado pelo início oficial das campanhas políticas em todo o país, candidatos a prefeito, vice e vereadores têm 45 dias para expor publicamente suas ideias, propostas, motivações. Enfim, 45 dias para encontrar meios de cativar o eleitor e fazer com que isso se reverta em votos. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral até o dia 26 de setembro, prazo limite para o registro de candidaturas, haviam sido efetuadas mais 545 mil solicitações de registro ao órgão, esse número significa um aumento de 9,8% quando comparado com os dados de 2016, ano do mais recente pleito eleitoral municipal. Outro fator importante é o crescimento de 50% das candidaturas a prefeito, quando observado exclusivamente as capitais brasileiras, algumas capitais chegam a ter 15 ou 16 postulantes ao cargo.

Esse conjunto de informações já evidencia acentuações importantes para o pleito deste ano, trata-se de uma eleição naturalmente atípica, por diversos fatores, o acirramento politico nacional, fim das coligações proporcionais para vereadores, todo o quadro de pandemia, o novo molde necessário as campanhas, dentre outros. Aqui se faz importante pontuar que é fundamental que o típico das campanhas seja posto por terra, momentos de decisão não devem ser tidos como fatores repetitivos, como tendo modos e moldes prontos, destronar o adjetivo ‘típico’, que tanto marca os processos eleitorais, é uma necessidade na crescente de consciência coletiva e social.

Nesse seguimento é essencial observar que existe muito em jogo nos pleitos municipais. As eleições municipais são momentos de meio, ainda pegam fatores importantes da última corrida presidencial, mas também podem antecipar algumas tendências, caminhos e mudanças que estão sendo produzidas no corpo social. E toda essa mistura, que já era notada desde a redemocratização, contará com ingredientes ferrenhos, a pandemia, mas especialmente, o acirramento dos ânimos no desenho da politica nacional.

A pandemia do novo Coronavírus trouxe bom encaminhamento para os políticos em reeleição, situação que atinge 80% das cidades brasileiras. Estes políticos ganharam uma vitrine nacional e local que é bastante importante, suas figuras estavam constantemente nos veículos de mídia ou pautando conversas nos âmbitos citadinos. Aqueles que conseguiram impetrar boas ações de combate a pandemia contarão, inicialmente, com um ar de vantagem. Além da vantagem competitiva que normalmente recai sobre o titular do cargo, ou seja, o prefeito do momento.

Aos que surfaram em uma onda de incompreensão do quadro atual, construindo uma ilógica narrativa de conspiração, receitando remédios sem comprovação cientifica, reabrindo o cotidiano dos sítios urbanos sem cuidados … tendem a observar a desidratação de seus nomes de início, parte desses optou, inclusive, por abandonar de pronto a corrida pelo posto maior do executivo municipal. Nesse ponto, é interessante lembrar que se tratam de tendências, logo, alguns casos também irão furar a bolha do caminho lógico. Porém, ao que tudo indica será em grau menor do que o que fora notado em 2016 e também em 2018, nas eleições gerais.

Tendo o que foi expresso anteriormente como parâmetro de partida, é ponderável que se notará neste ano um quadro maior de nacionalização dos pleitos municipais. Cotidianamente as disputas pelas prefeituras, especialmente em cidades de pequeno e médio porte, estão deslocadas quase que integralmente do quadro nacional, as pautas são mais locais e o debate pouco abarca o seguimento macropolítico. Entretanto, a pintura do atípico 2020 encaminha para o desnundar dessa questão.

Há, de modo inconteste, uma batalha travada por todo o país, situação e oposição estão nas ruas em busca de angariar cargos, cada um por um conjunto de motivos diferentes. A situação bolsonarista nota o seu decréscimo, a sucessiva perda de apoio político e popular, o descolamento da figura de Bolsonaro de ideias que o próprio apregoou, o constante envolvimento do clã em situações de corrupção e tráfico de influência. Além do afastamento de figuras importantes da gestão federal das bases, tanto em nível estadual quanto municipal. Tudo isso colocará árduas dificuldades para os que se definirem como candidatos da gestão federal.

Por sua vez, a situação anseia por mostrar que ainda conta com largo apoio de base, que seus pensamentos ainda encontram forte ressonância nos rincões nacionais. E é guiado por esse desejo que ainda proliferam candidatos ligados aos gestores do executivo nacional, no entanto, existe uma evidente fragmentação dessas candidaturas, elas estão espalhadas por diversas siglas, com destaque para o Patriotas, Republicanos e o próprio PSL. Ainda nesse gancho é necessário lembrar que nomes que estariam rompidos com o clã bolsonarista tendem a encontrar caminhos de reencontro, caso consigam atingir vitórias locais. Mas as dificuldades seguem presentes, nota-se receio de algumas figuras em associar-se àqueles que comandam o Palácio do Planalto.

A oposição almeja reconstruir uma base sólida nos ambientes municipais, ampliando fortemente o posicionamento nas cidades, especialmente alguns partidos que perderam o comando de 60% dos municípios que encabeçavam, caso do PT. Esse momento é um espaço de muita observação, pois como já dito, se faz em um instante de meio. Logo, aqui se realizará a primeira notação objetiva sobre os rumos que a política nacional vem tomando, nesse sentido, será a lupa que a oposição precisava para saber se suas possibilidades melhoram, ou permanecem em mesmo estágio.

Siglas importantes do campo opositivo lançaram candidaturas em alto número de cidades, nessa linha cabe enfocar o próprio PT, mas também o PDT e o Psol, esses partidos tem, em alguma medida, buscado ocupar um posto importante nacionalmente, e agora buscam reconstruir as bases municipais. Este é o instante em que as legendas do campo opositivo almejam evidenciar o seu necessário renascimento, tentando segmentar um redesenho de forças políticas, angariando postos de divulgação para os seus nomes na corrida de 2022.

Pegando desse ponto, há algo que une esses dois espectros, situação e oposição, em 2022 a clausula de barreira partidária será mais dura, logo, alguns partidos devem caminhar para irrelevância, caso não consigam um mínimo de votos. Pensando nisso, as legendas buscam fortalecer nomes municipais, nomes que serão peças chaves na divulgação de candidatos para os cargos que estarão em disputa em 2022, mas sobretudo que podem assegurar percentuais mínimos de votos, mesmo que dissipados.

Os pleitos municipais são eleições de proximidade, é a instância do Estado que mais chega ao cidadão, ou deveria, cada processo tem a sua especificidade, suas características. O processo deste ano tende a reorganizar essas características, tende ser mais o amanhã que o hoje, tende, talvez, a esvaziar olhares sobre a cidade. E sobre isso, é preciso ficar de olho.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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