Ameaças às eleições gerais de 2022 devem ser rebatidas energicamente

O presidente tem ampliado as declarações de ameaça. Diz de fraudes sem apresentar provas, grita e faz cena para seus apoiadores. Apesar de parecer cena, é preciso olhar atento, uma democracia jovem como a brasileira não pode se dar ao luxo do retrocesso.




Colunas, Paulo Junior

Infelizmente, já virou rotina ler e ouvir declarações do chefe do executivo federal colocando em xeque a segurança do sistema eleitoral brasileiro. Sem provas, ele alega que houve fraude em 2018, em 2014. Para ele o sistema eleitoral é extremamente ineficaz. Coisas que só acontecem no Brasil, local em que o vitorioso descredibiliza o meio que o elegeu. Bolsonaro grita contra a urna por um motivo simples, está vendo seu capital político derreter como gelo exposto ao sol. Prevendo a derrota, ele planta o ideal de fraude, quer inflamar sua transgressora militância.

Na última semana, explodiram novas falas de Bolsonaro, nelas, o presidente chega a chamar o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Roberto Barroso, de imbecil. Diz que sem eleições limpas, não haverá eleição. O grande problema de Bolsonaro é que eleição limpa, no seu vago vocabulário, significaria sua vitória- o que hoje é pouco provável. Ele se revolta como criança mimada, chora no canto da sala e ameaça agir contra o Estado Democrático.

A preocupação com a criança mimada deve ser mínima, mas com as suas ameaças deve ser máxima. Bolsonaro não tem a sagacidade de Getúlio para comandar um autogolpe. Mas é louco o suficiente para tentar. Neste ponto, deve haver o fortalecimento das instituições democráticas e autonomia objetiva dos poderes da República, agindo de modo constante, e incisivo, para que o grito bolsonarista permaneça restrito ao seu clã de fanáticos.

Em evento realizado em junho, Bolsonaro chegou a afirmar que haviam apenas dois poderes no Estado, o Judiciário e “nós”. Disse isso olhando para Arthur Lira (PP), atual presidente da Câmara. Lira elegeu-se com apoio do Planalto Central, desde então tem estado bastante alinhado com o Governo. Atualmente Lira está sentado sobre 125 pedidos de impeachment, o maior número da história recente do Brasil.

Diante das grotescas declarações do ocupante do Planalto, Arthur Lira vem se permitido o silêncio dos cumplices de primeira ordem. Ou, como parte do centrão, o silêncio dos que receberam primeiro.

Coube a Rodrigo Pacheco, diante dos desmandos bolsonaristas, proferir sua primeira fala com estirpe de presidente do Senado e do Congresso Nacional. Pacheco convidou a imprensa e afirmou que as eleições estão preservadas, e que toda fala capaz de atentar contra a democracia deve ser repudiada, não sendo permitidos retrocessos dessa ordem.

Citado por Bolsonaro, Barroso disse em nota que, a tentativa de impedir as eleições “viola princípios constitucionais e configura crime de responsabilidade”. Também assegurou a realização do pleito de 2022, não havendo riscos a sua não realização. Ministros da Suprema Corte brasileira também repudiaram a declaração do presidente da República.

Bolsonaro esbraveja aos quatro cantos, e sofre de insônia, seus gritos não são capazes de aplacar seu medo. Ele é intelectualmente limitado, segundo o DataFolha, 63% o considera incapaz de liderar o país. Contudo, mesmo defronte sua rasa cognição, ele foi capaz de perceber que sua linha está se encerrando. A CPI Covid-19 abriu as portas para o pior que há no governo, as múltiplas faces de sua desumanidade.

O número de depoimentos que caminham para irregularidades, ausências do executivo, recomendações sem comprovação médica, são diversos. Tudo cairá no colo do mandatário nacional. Ele sabe que seu caminho como presidente tem data para acabar, podendo ser adiantado por um processo de impeachment. Sabe que se não disser que tudo é fraudado, até mesmo seus cegos seguidores tenderão a lhe deixar.

Bolsonaro ruma para ser derrotado por todos os possíveis candidatos em cenários de segundo turno. Talvez nem no segundo turno seja capaz de chegar. Entregue ao caos, bradando inverdades, agredidos jornalistas e dizendo que não haverá eleição, ele tenta ficar, mas seu destino é sair.

Todavia, esta democracia ainda é recente, suas feridas seguem abertas. Há um vácuo que precisa sempre ser ocupado. Toda declaração que ameaça a continuação democrática deve ser energicamente rebatida, especialmente se essa ameaça vier de um ente público constituído pelo voto popular. Aqui, endosso, criar exigências à realização das eleições, neste caso, é criar resistência a persistência da vivência democrática.

Porque cerceamento de liberdade, censura e voto indireto são coisas do passado. E como cantou o cearense Belchior: “o passado é uma roupa que não me serve mais.”.

Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA. Um apaixonado por política, literatura e cinema. E-mail: [email protected]

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