A vacina chegou! E devemos agradecer a quem partiu, voltou e repartiu.

A vacina chegou e, já que chegou, é importante que olhemos para trás e percebamos quem nos entregou seu esforço e suas próprias vidas.




Mônica Calazans foi a primeira brasileira a ser vacinada.Foto: Danilo M Yoshioka/Futura Press/Folhapress

Domingo, 17 de janeiro de 2021. Um dia emocionante para todo um país que há quase um ano sobrevive a tempos tão sombrios. Embora o desastroso 2020 tenha acabado, muito ficou dentro de nós o medo dos dias seguintes e, de forma ainda mais forte, a esperança pela tão sonhada vacina. Ela chegou! E a primeira pessoa a ser vacinada foi Mônica Calazans, de 54 anos, uma mulher negra e enfermeira, que enfrentou com garra e dor a dura rotina de uma UTI, na cidade de São Paulo, epicentro da Covid-19. Quantos sentimentos surgem vendo essas imagens! Principalmente quando associadas às tantas outras que se mostraram ao longo de todo esse tempo.

Se voltar a fita, lembraremos que uma das primeiras pessoas a morrer no Brasil pelo novo – e já tão velho – Coronavírus, foi, também, uma mulher negra. Na condição subalterna de empregada doméstica, ela faleceu depois de ter contraído o vírus de sua patroa, que acabara de voltar de uma viagem pela Itália. Um fato que evidenciou o que poderia vir pela frente: uma mesma tempestade, mas com barcos em situações bem diferentes.

O vírus pandêmico também nos mostrou outros tantos vírus que, em vida – e na luta pela sobrevivência – nós enfrentamos: A ignorância, a violência, a intolerância, o descaso, a descrença, a irresponsabilidade. Muitas vidas foram perdidas, mas para muitos não se passaram de números. Para tantos outros, foi perdido o amor de suas vidas. Para todos que perderam, imagino a dor que é estar hoje sabendo que a vacina não chegou a tempo para salvar os amores de suas vidas.

É… a vacina chegou! E já que chegou, é importante que olhemos para trás e percebamos quem nos entregou, quem doou suas próprias vidas nos leitos de hospitais, quem se foi depois de ter lutado para deixar vivendo pessoas que nem sequer conheciam, e quem lutou até o último segundo para permanecer vivo e se encontrar com uma solução. A todas elas e eles que estiveram antes da vacina: NOSSO MUITO OBRIGADO!

É importante lembrar também que ao longo desses duros meses, o vírus da ignorância e da negação também nos matou muito. A cada vez que o governante maior do Brasil, de forma desumana, brincava ao expor números (“não sou coveiro”) e de doutor supremo (“tomem cloroquina”), milhares de pessoas morriam. O “Deus acima de tudo”, transformou-se em “ao deus-dará”, entregando vidas brasileiras à própria sorte. E continua acontecendo, é só prestar atenção aos últimos dias de dor e desespero em Manaus, no Amazonas, e a realização do ENEM em um contexto ainda muito problemático da pandemia. Ao presidente do Brasil, que saiba: A história cobrará!

Hoje, a ciência do nosso país mostra que também resiste, e que, embora tenhamos um governante irresponsável, ela ainda vence. E é descobrindo o poder que nosso povo tem de resolver problemas e de resistir a eles, que o momento agora é de cobrança por responsabilidade, por mais segurança para que muitos outros dos nossos não se vão e que permaneçam vivos. Estar vivo, hoje, depois de tanto e com tanto, é nosso bem mais precioso, e precisamos nos manter VIVOS! Afinal, viver é um ato político, é a própria prova de vida e de esperança.

A pandemia não acabou porque a vacina chegou. Que a gente saiba disso! A hora é de mais atenção do que nunca, a nós, aos nossos, aos outros, aos dias que virão. Vamos comemorar essa grande vitória com a esperança que nos carregou nos braços até aqui, vamos acreditar ainda mais na ciência e na nossa humanidade, e lembrar todo dia que sozinho não se caminha. Como diria o rapper Emicida em É tudo pra ontem: “Viver é partir, voltar e repartir…” Aos mais de 209 mil que partiram e aos que voltaram e repartiram, nossa gratidão.

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Sobre Joedson Kelvin

Jornalista formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA). Fotógrafo experienciador que vê, escreve e sente, não necessariamente nesta ordem.

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