A ordem do dia é a crise

O que se vê é um Estado que se envolve em dezenas de crises semanalmente, envolvimento que concentra esforços políticos indevidos




Quantas coisas podem acontecer em uma semana? Talvez você, caro leitor, esteja se questionando o porquê desta pergunta, mas ela encontra respaldo nos recentes atos políticos nacionais, especialmente, quando eles denotam a frieza e a instabilidade que conduzem os rumos maiores da nação. Em meio a pandemia que o país vive, uma semana é bastante tempo, as atitudes tomadas nela podem ser responsáveis por salvar centenas de vidas, por permitir que o colapso não venha, que ele chegue mais tarde, permitir que o sistema de saúde se prepare, que estados e municípios fortaleçam suas estruturas. Ou seja, há muito para se fazer, no entanto, tais fatos só ganham ressonância quando existe um governo capaz de centrar esforços e observar o que de fato é prioritário. Infelizmente não é o caso.

O Brasil vem observando a crescente assustadora de seus números, no que tange os dados de coronavírus, já são mais 80 mil infectados, além das mortes estarem próximas de 6 mil. Logo, nitidamente é uma situação que exige, no mínimo, alto grau de atenção e acompanhamento. No Brasil de hoje, no Brasil da pandemia, a saúde pública deve ser o pilar, o guia maior de todas as decisões e atenções.

Entretanto, o que se vê é um Estado que se envolve em dezenas de crises semanalmente, envolvimento que concentra esforços políticos indevidos. O Presidente vive em uma redoma, nesta redoma ele acostumou-se a crer na sua verdade relativa, segundo ela todos estão errados, mas ele é capaz de restabelecer a verdade.

 A repercussão da saída de Moro ainda graceja nos corredores do Planalto, ela está longe de ser superada. A deputada Carla Zambelli afirmou ontem que pressupunha uma crise maior que a atual, a declaração foi proferida em entrevista ao programa Aqui na Band. A fala da deputada merece reparo, pois o momento atual no governo é de alta tensão, as articulações internas estão a todo vapor e tudo encaminha para que o governo se alie, oficialmente, ao grupo de partidos que compõe o Centrão. Tal aspecto ocorre por um simples motivo, o desmonte que se estabeleceu no Palácio do Planalto foi capaz de minar a base de apoio do governo. Sem apoio e com um quadro de mais de trinta pedidos de impeachment e a vontade de aprovar reformar e leis, o governo vem cedendo, cede para que chamou de velha política, mas que nos bastidores sempre praticou. 

 No entanto em uma semana conturbada acontece muito mais coisas. As declarações de Moro ao pedir demissão levaram o Procurador Geral de República, Augusto Aras, a solicitar que o STF (Supremo Tribunal Federal) abrisse inquérito para averiguar possíveis crimes cometidos pelo Presidente da República, a solicitação foi acolhida e autorizada pelo ministro Celso de Mello, que também autorizou inquérito contra o ministro da Educação, este, para apurar possível crime de racismo contra chineses. O ministro da educação publicou nas redes sociais uma mensagem que imitava o modo de falar de alguns chineses, quando estes falam português. A fala de Weintraub supunha que havia um plano de dominação mundial, esse plano seria comandado pelos chineses.

 Mas o que dominou os últimos dias foi a expectativa sobre quem ocuparia os cargos de diretor geral da PF (Polícia Federal) e de Ministro da Justiça. Bolsonaro tinha nomes específicos em mente, ansiava que eles rapidamente tomassem posse. Para a PF o nome cotado era Alexandre Ramagem, já na Justiça o desejo girava em torno de Jorge Oliveira. Ambos já tinham cargos nomeados pelo gestor federal, Ramagem comandava a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Oliveira ocupava o posto de secretário Geral da Presidência.

Os nomes anteriormente citados iam de encontro direto a narrativa de interferência na Polícia Federal, pois tratam-se de pessoas tidas como intimas da família Bolsonaro. Logo, não teriam problema em sujeitar-se aos desmandos que seguidamente são praticados. A nomeação trouxe apenas uma surpresa, Jorge Oliveira iria permanecer na secretária da presidência, a ala militar interviu a demoveu o presidente da ideia de indicá-lo para a pasta da justiça, o próprio Oliveira estava reticente em aceitar o convite, já prévia as retaliações em prol da sua larga proximidade com o mandatário da república.

            O Palácio da Justiça será agora ocupado por André Mendonça, antigo Advogado Geral da União. Mendonça tem carreira na advocacia geral e já chegou a ser cotado para uma das vagas que serão abertas no STF. No discurso de posse jurou lealdade ao presidente e realizou algumas referências ao seu antecessor. André Mendonça aliou-se ao gestor até no modo de combate a pandemia, a cerimônia de posse foi marcada pela aglomeração de pessoas e pelo não uso de máscaras, o novo ministro fez questão de dizer que a crise não era somente de saúde, mas também de emprego e economia. Este alinhamento soa bem aos ouvidos de Bolsonaro, pois Moro discordou publicamente do modo que o Presidente vinha/vem conduzindo a questão.

  A posse referida ocorreu na quarta, 28, neste dia também tomaria posse o diretor geral da PF, Alexandre Ramagem. Todavia, o ministro do STF, Alexandre de Moraes, concedeu liminar em regime de urgência impedindo a nomeação de Ramagem, segundo a decisão proferida por Moraes, a nomeação contraria a observância de princípios constitucionais de impessoalidade, moralidade e interesse público. O ministro do STF transcreveu trechos da fala de Moro para justificar sua decisão, nos trechos transcritos o ex-ministro faz referência ao desejo do presidente de ter alguém próximo, para quem pudesse ligar e pedir relatórios; citou também afirmações do próprio presidente, que reiterou que solicitava constantemente relatórios das ações desenvolvidas pela Polícia Federal. A ação foi ajuizada pelo PDT.

 Quando notificado da suspensão o Planalto soltou uma nova versão do Diário Oficial da União, nesta ele tornava sem efeito a nomeação de Ramagem para a PF, fato que motivou a AGU a afirmar que não iria recorrer, pois a ação havia perdido objeto. Porém, no fim do dia o presidente foi categórico ao dizer que iria recorrer e quem mandava era ele. Esta conturbação enfraquece ainda mais o novo ministro da Justiça, ele assumiu sem a prerrogativa de indicar o diretor da PF e no meio da confusão criada sua voz não é sequer solicitada. Bolsonaro quer Ramagem porque prima por esta interferência, quer mostrar sua capacidade de ação. Como eterno centralizador, ele não nota que ao ansiar por comandar tudo vem perdendo a possibilidade de controle.

 Ramagem ainda aguarda, mas antes da posse já trabalhava e dava expediente na sede da Polícia Federal em Brasília. Atualmente quem assume o comando interino é Disney Rossetti, número dois na hierarquia da instituição, Rosseti chegou a ser indicado por Moro para assumir a vaga deixada por Valeixo, antigo diretor geral.

 Até aqui já falou-se de alguns pontos, inquéritos contra o presidente e um de seus ministros, o desencontro entre o presidente e a AGU, a proibição da nomeação do diretor da PF, a não indicação do nome de Jorge Oliveira para a pasta da Justiça, a negociação de cargos, a postura incoerente do presidente no combate a pandemia. Mas ainda há mais.

Esta semana também está marcada pela autorização dada pelo gestor federal para que se faça uma fritura pública da secretária de cultura, Regina Duarte está no cargo a cerca de dois meses. Segundo Bolsonaro ela está muito isolada, afastada do grupo maior do presidência, pesa ainda o fato da secretária estar trabalhando de modo remoto, de sua casa em São Paulo, devido ao isolamento social. Tal contexto leva a crer que em breve a secretária que chegou com status de ministra salvadora, sairá. Sairá sem ter uma gestão para defender, sairá pelo mesmo motivo que entrou, pela conveniência do presidente e de seus auxiliares.

Houve mais, a exoneração de dois membros de autarquias de cunho preservacionista do meio ambiente colocou em xeque a autonomia de instituições importantes, como Ibama e ICMBio. Os exonerados foram responsáveis por conduzir parte da operação que desativou garimpos irregulares na Amazônia, além de ter combatido a grilagem e buscado evitar que o coronavírus adentrasse a floresta e infectasse indígenas.

 Não obstante tudo isso, o ministro da saúde nega suas posturas e segue falando obviedades. Quatorze dias depois de tomar posse, Teich continua observando a situação, não toma medidas ofensivas e faz reuniões protocolares. O Ministério da Saúde adormeceu, Teich e seu secretário executivo, Pazuello, estão vivendo em outro país. No dia que o país ultrapassou a China em número de mortes foi necessário insistir para que a pasta se posicionasse, desse um parâmetro do que faria em diante. No entanto, a fala foi mais do mesmo, e incrivelmente é um mesmo vazio e distante. Distante da realidade dos que vivem, aquém dos que morrem.

 Bolsonaro também falou sobre o crescimento das mortes, soltou um famigerado “E daí?”. Bolsonaro, aparentemente, vive em um país diferente, país sem empatia, sem dor, país que não sofre quando perde seus pátrios. A colocação do presidente põe fim ao patriotismo defendido por ele, não pode ser chamado de patriota aquele que não sente a dor da perde dos seus, aquele que não se comove com as filas dos hospitais em busca de atendimento. O presidente não compreende os ritos da vida em sociedade, do respeito. Não compreende que ele fala por instituições e que suas posições reverberam fortemente. Bolsonaro vive de fundar crises, de fazer uma semana mais conturbada que a outra. Ele vive para produzir incêndios, e outros vivem para tentar apagar. Bolsonaro segue crendo que está em campanha, para ele ela nunca tem fim. Em eterna campanha ele assume todos os papéis, menos o de Presidente da República.

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Sobre Paulo Junior

Graduando em jornalismo pela UFCA e um apaixonado por política, literatura e cinema

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