A dor daqui é a glória de lá

Portugal é o país que arruinou o meu.




Coluna do Paulo Rossi, Colunas

PARÊNTESES

O título deste texto seria originalmente “a nossa dor é a glória deles”, mas passei a achar que não faria sentido me incluir e incluir todos os brasileiros dentro dessa dor, já que muitos de nós somos privilegiados e não sentimos, de fato, nem um centésimo da dor de grande parcela da população, massacrada em um processo de colonização tão violento que deixou marcas até os dias atuais. Estou ciente dos meus privilégios e estou ciente de que me revolto enquanto brasileiro pelo que foi feito com aqueles que eram os donos originários dessas terras, mas que devo ter bastante cuidado. Sendo assim, a opção por “daqui” é uma forma de generalizar o nosso país, pensando sobre o quanto essa situação é absurda. Não estou falando em nome dos índios, não pretendo tomar o lugar de fala de ninguém e nem o poderia fazer. Falo enquanto brasileiro. Somente enquanto brasileiro.

TERRITÓRIOS

Desde que cheguei lá (e agora que retorno, mais ainda), muito me é perguntado sobre a experiência de morar em Portugal. E é difícil pra mim falar sobre isso. Primeiro, porque cresci com um ódio corrente nas minhas veias gigantesco todas as vezes em que estudava a história do meu lugar. Portugal é o país que arruinou o meu.

Mas a vida, irônica, me surpreendeu com uma oportunidade de ampliar meu conhecimento de mundo, viver “novas” culturas e experiências e eu me joguei. Tive a oportunidade de conhecer pessoas que valem a pena. Pessoas que me fizeram mudar o meu pensamento de muitas maneiras. Dos mais rudes aos mais simpáticos. “É o jeito de ser, fazer o quê?”

Ainda assim, preciso desabafar sobre o único problema (e que problema!) que ainda me inquieta. A História. A História não pode continuar a ser negada. Quando saí do Cariri e conversava sobre como ficaria puto quando visse ouro roubado pela Europa, uma amiga negra (estou colocando esse detalhe aqui porque acredito ser importante para o texto) olhou para mim e disse “Paulo, isso é anacrônico. Como na Alemanha. Você não pode culpar eles hoje pelo que foi feito. Eles tem consciência e já se arrependeram”. Para o meu espanto e choque, na verdade, quando lá morei, reparei que acontece exatamente o contrário. Seja por orgulho ou ignorância os portugueses parecem não saber se quer como aconteceu o processo de colonização, numa espécie de alzheimer coletivo ou qualquer outra coisa do tipo. Não há qualquer sinal de arrependimento ou de tristeza pelas milhões de almas devastadas num processo de matança, estupro e roubo. Há apenas orgulho. E glória. E melancolia pelo auge do país que ficou para trás há muitos séculos. 

A dolorosa história do que foi feito aos seres humanos que aqui residiam é contada no continente europeu ainda como um bonito conto de fadas em que eles “descobrem”, repaginam e ainda por cima salvam da ignorância e situação quase animalesca todo um continente, inserindo ao mundo de maneira quase heroica mais um povo conquistado que agora seria “civilizado” e passaria a agir como “seres humanos de verdade”. Não foi isso! Isso deveria agredir no fundo da alma qualquer brasileiro, qualquer latino americano. Isso deveria machucar! Porque a História é contada apenas pelo lado “vencedor”? A verdade é que a nossa, por exemplo, foi roubada dos brasileiros. Ela não é protagonizada por quem é originário dessa terra. Nossa história não é contada por quem aqui estava em 1500. E nem por nós. É contada pelos de fora, que saquearam a colônia até o último Pau Brasil, açucar e café possíveis.

Teria a Alemanha então se envergonhado somente porque perdeu a segunda Guerra Mundial e não pelos horrores que foram feitos? Porque os europeus se chocam hoje com o que Hitler fez, mas não se chocam com o que eles fizeram às suas colônias? Preciso entender. É isto que o mundo é? Me ponho a pensar – outro texto virá sobre este tema -. E enquanto alguns brasileiros ainda mais ignorantes, ingênuos ou nojentos continuam a repetir o discurso do lado opressor que claramente não é o nosso, eu não me permito. E mesmo com as tentativas de aceitá-los, resta em mim uma dúbia relação de gratidão pelo tempo que pude viver num país estrangeiro e ódio que só pode deixar de existir no dia em que uma reparação histórica for feita – e olhe que, mais uma vez, sei que não represento o povo brasileiro que realmente sofreu e ainda sofre as consequências da colonização, tenho plena consciência inclusive de que a reparação histórica a ser feita não é para mim -.

Acredito muito na potência que é a ignorância. Você ganha o mundo tornando-o escravo da sua forma de pensar. Você ganha o mundo fazendo-o acreditar na sua versão. E é isto que a Europa, enquanto continente, tem produzido ao longo dos séculos. Padrões de vida vendidos como únicos modelos corretos e possíveis. A tristeza é perceber que continuamos reproduzindo, nos países latinos e mundo afora, esses modelos. Que continuamos acreditando nesse fracasso de padrão. Os EUA deixaram de acreditar há muito tempo. E veja onde estão agora – não que não estejam produzindo horrores tão grandes quanto a Europa, sabemos -.

São os europeus apenas ignorantes que ainda não perceberam o massacre que foi feito porque no dia-a-dia não vivem o resultado da colonização na condição de oprimidos? Eles não vivem as violências geradas por esses processos. Eles só vêem o que lhes é mostrado: Glória. “Descobrimento”. “Vitória”. “Honra”. “Coragem”. E esse é o mal da ignorância, só se vê o que se é mostrado. A gente do lado de cá de certa forma também só vê o que está nos nossos olhos: mas o que está nos nossos é violência. Não há como esquecer, não há a opção de fingir não viver as consequências do que foi feito.

O que eu sei é que se já estava incomodado antes, ao entrar num Museu sobre os “desbravadores dos mares” em Sevilha, Espanha, e me deparar com a imagem estampada na capa desse texto, me senti muito mal. Achei forte demais o baque. Me senti um judeu num museu nazista. Uma presa num cercado. É assim que a América Latina é vista na Europa: como um prêmio. É isso que as cabeças das populações originárias daqui simbolizam: a vitória deles. Sem qualquer reflexão. Sem qualquer entendimento do que está exposto ali, do quanto aquilo fere. As mortes dos ancestrais da nossa gente expostas como prêmios conquistados. 

Não sei, o pensamento é confuso ou a vida é que é? O que sei é sobre o que sinto e o que aconteceu de fato. Mas aqui sigo acreditando em um dia em que memoriais e mais memoriais tais quais os de Berlim na Alemanha vão existir, sonhando com um pedido de desculpas e consciência por parte dos europeus, não que isso repare historicamente ou desfaça todo o mal feito. Sonho com um tratamento mais decente aos brasileiros, africanos e latino americanos que se aventuram em terras distantes ou que em seus países vivem. Talvez os de lá tenham “vencido” há cinco séculos. Mas eu sempre pensei e continuo a pensar, agora com a mais plena das certezas e a maior das convicções: guerreiros e heroís são os que mesmo violentados resistem até hoje nesses territórios negados.

Sobre Paulo Rossi

Graduando em Jornalismo pela Universidade Federal do Cariri - UFCA. Amante, principalmente da 'dúvida'. Existencialista. Sonhador. Louco.

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