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Do excedente à mesa das crianças, como o Sesc Mesa Brasil transforma alimentos em cuidado no Cariri

Programa distribuiu 441 toneladas de alimentos na região do Cariri entre janeiro e setembro de 2026 e atende 146 instituições. Na Escola Poço de Jacó, frutas, legumes e cereais resgatados ajudam a diversificar a alimentação das crianças e fazem diferença na rotina das famílias.

Lucas Galvão

Por

Colunas
Fotos: Pablo Vitor Oliveira
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O alimento que não encontra espaço nas prateleiras dos supermercados ou que deixa de atender aos padrões estéticos do comércio nem sempre perdeu seu valor nutricional. Em muitos casos, frutas e verduras continuam próprias para o consumo, mas correm o risco de ser desperdiçadas. Ao mesmo tempo, famílias em situação de vulnerabilidade social enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação adequada.

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É nesse intervalo entre o que sobra e o que falta que atua o Sesc Mesa Brasil. O programa conecta produtores, empresas e outros doadores a instituições sociais que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade. No Cariri, essa rede chega às escolas, onde os alimentos recebidos se transformam em refeições e passam a fazer parte da rotina de centenas de crianças.

Fotos: Pablo Vitor Oliveira

A nutricionista Eleale Feitosa, do Sesc Mesa Brasil, explica que o trabalho começa com o aproveitamento de alimentos que, embora não atendam mais às exigências comerciais, continuam adequados para o consumo.

“Muitas vezes, o agricultor tem uma grande produção e acaba não conseguindo comercializar tudo aquilo. O excedente ele doa, para a gente repassar para as instituições.”

Eleale Feitosa, nutricionista do Sesc Mesa Brasil

A mesma situação acontece com alimentos que sofrem pequenas alterações na aparência durante o transporte ou a exposição. Uma fruta pode deixar de ser escolhida pelo consumidor por causa de uma marca na casca, por exemplo, sem que isso signifique perda de suas propriedades nutricionais.

“Às vezes, comercialmente, ele não se encontra mais adequado, mas ainda garante o valor nutricional e está próprio para o consumo. Então, a gente vai buscar esse alimento. É feita uma triagem para que ele também chegue seguro para quem vai receber”, afirma Eleale.

Fotos: Pablo Vitor Oliveira

A seleção é uma etapa importante para que o aproveitamento não comprometa a segurança alimentar. Os produtos passam por avaliação antes de serem encaminhados às instituições, e o programa mantém diálogo ativo com os doadores para conhecer as condições em que os alimentos serão entregues.

Mas recuperar o que poderia ser descartado é apenas uma parte do trabalho. O objetivo também é ampliar o acesso a uma alimentação variada, com frutas, verduras e outros alimentos que nem sempre fazem parte da mesa de quem enfrenta dificuldades financeiras.

“Às vezes, é uma fruta que tem um custo maior e o Mesa consegue fazer chegar. Fazemos esse momento de acolhimento através do alimento e através do acesso”, destaca a nutricionista.

Uma rede que chega a milhares de pessoas

O alcance dessa iniciativa pode ser medido pelos números. Entre janeiro e setembro de 2026, o Sesc Mesa Brasil distribuiu 441.096 quilos de alimentos no Cariri. Para se ter uma ideia, isso equivale a cerca de 29 mil cestas básicas ou mais de 882 mil pratos de comida.

Atualmente, o programa atende 146 instituições cadastradas, que, juntas, alcançam 51.214 pessoas na região. São crianças, adolescentes, adultos e idosos atendidos por organizações sociais, além de pessoas e famílias em diferentes situações de vulnerabilidade.

No Ceará, o programa já distribuiu 70 milhões de quilos de alimentos desde sua criação, segundo os dados institucionais informados pelo Sesc.

Fotos: Pablo Vitor Oliveira

A dimensão desses números ajuda a entender a importância de uma rede que conecta o excedente da produção às necessidades de quem precisa. O impacto, no entanto, ganha outra dimensão quando se acompanha o caminho percorrido pelos alimentos até chegar à mesa.

Na Escola Poço de Jacó, localizada no bairro Horto, em Juazeiro do Norte, essa parceria faz parte da rotina. A instituição recebe doações do Sesc Mesa Brasil desde março de 2005. Entre os produtos estão frutas, legumes e cereais que ajudam a compor as refeições servidas aos estudantes.

A diretora da escola, Cícera dos Santos Martins, conta que a variedade dos alimentos também contribuiu para mudar os hábitos alimentares das crianças.

“Muitas crianças daqui aprenderam a comer uma alimentação saudável, com frutas e legumes, através desse projeto, através dessa doação.”

Cícera dos Santos Martins, diretora da Escola Poço de Jacó

Na unidade, a alimentação é organizada ao longo da manhã. As crianças tomam café da manhã às 7h, recebem uma fruta às 9h e almoçam às 10h30. Parte dos alimentos que chegam por meio do programa é utilizada nesse cardápio.

A oferta das três refeições tem um significado especial porque nem todas as crianças chegam à escola depois de comer em casa. “Existem algumas crianças, principalmente as que vivem em situação de vulnerabilidade social, que vêm sem o café da manhã. Então, quando chegam aqui, já tomam o café e vão para a sala de aula alimentadas”, conta Cícera.

A diretora observa que a previsibilidade das refeições também faz parte da rotina dos alunos. Eles sabem que haverá café da manhã, fruta e almoço, e voltam para casa depois de terem se alimentado. O trabalho, portanto, não se resume a complementar o estoque da cozinha escolar — ele contribui para que as crianças tenham acesso a alimentos variados e comecem o dia alimentadas, em condições de aproveitar ao máximo o período de aprendizado.

O cuidado que começa antes de o alimento chegar à escola

Para que as doações cumpram esse papel, o cuidado precisa acompanhar todas as etapas do percurso. Antes de chegar às instituições, os alimentos passam por procedimentos de seleção, higienização e armazenamento, conforme as características de cada produto.

Na cooperativa que recebe frutas destinadas à produção de polpas, a nutricionista Richelma Santos Paulino é responsável técnica pelo controle de qualidade. Ela explica que as frutas passam por uma seleção inicial, na qual são retiradas aquelas que não estão apropriadas para o processamento. Em seguida, os produtos passam por lavagem, higienização com hipoclorito e enxágue antes de seguir para a etapa de processamento.

Os trabalhadores também precisam cumprir os procedimentos de higiene e utilizar os equipamentos de proteção adequados, como toucas, luvas, máscaras, aventais e botas. Richelma acompanha o processo desde a chegada da fruta até a produção final. “Isso é fundamental para a gente garantir um alimento seguro”, explica.

Depois de prontas, as polpas são armazenadas em câmaras de congelamento, com monitoramento da temperatura para preservar a qualidade. O transporte também exige cuidados, com o uso de caixas apropriadas ou caminhões térmicos. Entre as frutas recebidas estão acerola, manga e goiaba, utilizadas na produção de polpas, além de melão e melancia.

Eleale destaca que o acompanhamento não termina quando a doação chega à instituição. O Sesc Mesa Brasil também realiza ações de desenvolvimento de capacidades, com orientações sobre higiene, manipulação e aproveitamento integral dos alimentos.

“Quando a equipe vai buscar essa doação, também é capacitada para fazer essa triagem. Quando chega aqui, é feita outra triagem e depois o alimento é encaminhado às instituições. A gente não só doa alimento, como também leva cuidados de higiene, manipulação e aproveitamento integral, através de oficinas e palestras”, explica Eleale.

A proposta é fortalecer toda a cadeia, desde quem doa até quem recebe. Com isso, o trabalho de combate ao desperdício se conecta à segurança alimentar e à qualidade das refeições oferecidas.

Na mesa das crianças, o impacto aparece na rotina

Na Escola Poço de Jacó, em Juazeiro do Norte, os efeitos dessa parceria também são percebidos pelas famílias. Andréia de Araújo, confeiteira que trabalha em casa e mãe de uma aluna, conhece a instituição de diferentes perspectivas: ela própria estudou no local, assim como seu filho mais velho. Hoje, acompanha a rotina da filha e diz confiar no cuidado oferecido pela escola, especialmente na alimentação.

“É muito bom. Aqui, a escola passa alimentos saudáveis para a criança. Não só dá o alimento, como explica qual é a importância das frutas, por que elas têm que comer feijão, arroz”, conta.

A filha recebe as três refeições oferecidas pela unidade. Por isso, Andréia não precisa preparar um lanche para levar à escola e sabe que a menina almoça antes de voltar para casa. “Ela chega em casa e já fico despreocupada. Já é um serviço a menos para a mãe. Ela mesma já diz: ‘Mamãe, eu já almocei, tomei café’, e fala o cardápio que foi durante o dia”, relata.

A fala da mãe mostra outro aspecto dessa rede: quando a escola consegue garantir refeições aos estudantes, o benefício também alcança a rotina de quem cuida deles. Para famílias com muitas tarefas e mães com jornadas duplas de trabalho — dentro e fora de casa — saber que a criança se alimentou durante o período escolar representa um alívio.

Na cozinha da instituição, esse resultado também é motivo de satisfação para quem prepara as refeições. A cozinheira Isneide Silva Fernandes estima que sejam atendidas entre 120 e 130 pessoas por dia e diz sentir gratidão ao perceber a reação das crianças à comida.

“É um sentimento de muita gratidão, principalmente quando eu faço o almoço e eles dizem: ‘Está muito gostoso’. Aí eu fico muito feliz de saber que estou participando da alimentação deles e que é uma alimentação saudável, com a qual a gente sempre tem esse cuidado”, afirma. Ela resume o sentimento em poucas palavras: “É um prazer imenso.”

O depoimento dá rosto a uma etapa que muitas vezes passa despercebida quando se fala em doação de alimentos. Entre a chegada dos produtos e a refeição servida, há também o trabalho diário de quem seleciona, prepara e cuida para que a comida chegue à mesa.

Entre o que seria descartado e o direito de se alimentar bem

O desperdício de alimentos e a insegurança alimentar são problemas que convivem no Brasil. Enquanto parte da produção pode ser perdida por razões comerciais, logísticas ou estéticas, milhões de pessoas não têm acesso regular a uma alimentação adequada.

É importante, porém, não tratar todo alimento excedente como alimento desperdiçado, nem presumir que toda doação, sozinha, resolva a insegurança alimentar. O trabalho do Mesa Brasil atua em uma parte desse desafio: aproveita produtos ainda próprios para o consumo, organiza sua distribuição e ajuda instituições sociais a ampliar a oferta de alimentos.

Na avaliação de Eleale, a diversidade é fundamental nesse processo. A chegada de frutas e outros produtos permite complementar refeições e ampliar o acesso a nutrientes.

“A alimentação saudável é um direito. A gente tem essa oportunidade de garantir a diversidade de alimentos para as pessoas atendidas pelas instituições, garantindo também diversidade de nutrientes. A gente proporciona qualidade de vida, saúde e bem-estar.”

Eleale Feitosa, nutricionista do Sesc Mesa Brasil

No Cariri, os números mostram a dimensão da rede. Na Escola Poço de Jacó, o efeito pode ser visto em uma fruta servida durante o lanche, no almoço preparado para mais de uma centena de pessoas e na criança que chega à sala de aula depois do café da manhã.

O caminho desses alimentos envolve produtores, trabalhadores da cooperativa, equipes do programa, profissionais da escola e famílias. Cada etapa tem uma função, mas todas se encontram no mesmo destino: fazer com que alimentos que ainda têm valor cheguem a quem precisa, com segurança, qualidade nutricional e cuidado.

Para Eleale Feitosa, o impacto desse trabalho vai além do que chega ao prato. Está também na possibilidade de acolher pessoas, oferecer dignidade e transformar realidades por meio da alimentação. “A gente acolhe através do alimento. A gente transforma vidas através do alimento. Através desse serviço, nós conseguimos transformar vidas de diversas formas: tocando através do valor nutricional, tocando através do abraço. Então, o Mesa Brasil tem essa capacidade de acolher, de abraçar.”

É nessa combinação entre alimento, cuidado e acolhimento que o Mesa Brasil encontra seu propósito: não apenas evitar que a comida seja desperdiçada, mas fazer com que ela chegue à vida de quem mais precisa.

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